Título: Para além da corrupção
Autor: Milton Temer
Fonte: Jornal do Brasil, 28/06/2005, Outras Opiniões, p. A11
Se havia alguma dúvida, ponto final. Agora são todos farinha do mesmo saco. PT-PMDB de um lado; PSDB-PFL, do outro, compuseram semana passada o quadro da ''governabilidade'' que os grandes banqueiros não querem ver alterado, a partir do que consolidaram como privilégios no mandato Luiz Inácio Lula da Silva. Alternando-se entre esses dois eixos, seis-por-meia-dúzia em termos ideológicos, que pode ter formatação intercambiada por análise combinatória, se alojariam as legendas de aluguel. Essas que estão sob suspeita do ''mensalão''.
Tal projeto, visando transformar o cenário partidário brasileiro em algo semelhante ao ''confronto'' entre democratas e republicanos da realidade norte-americana, não se explicitou apenas através do quádruplo aperto de mãos dos donos, ou porta-vozes, das legendas partidárias em pauta. Foi confirmado, mesmo, na longa entrevista coletiva do ministro Antonio Palocci, um dia após Lula ter recebido, no Planalto, o conjunto de lideranças, outrora combativas, do movimento social organizado.
Comecemos pela reunião, indício de gritante esquizofrenia tática. De um lado, apoio a Lula, contra um hipotético golpe da direita que, requerendo sucessivas CPIs, estaria criando um clima de desestabilização do governo. Suspeita admissível, como observou Veríssimo, existisse um governo de esquerda. Do outro, duas exigências para que as boas relações com o Planalto se mantivessem: alteração profunda nos critérios de alianças partidárias e inversão de prioridades na política macroeconômica. Patético, porque pedia para o governo deixar de ser de direita.
Menos de 24 horas depois, e sem nenhuma reação de qualquer dos participantes da pajelança da véspera, Palocci reafirmava o caráter inviolável da atual ortodoxia monetarista, com apoio integral do presidente Lula. E anunciava a extensão dos atuais 4,5% de meta de inflação até 2007. Ou seja, por mais três anos, estará mantido o arrocho fiscal que arranca recursos dos investimentos sociais para a continuada concentração de riqueza nas mãos dos grandes banqueiros e dos rentistas, especuladores no autoritário ''mercado''.
Palocci, sem tremer um músculo da face, não só desprezou as exigências da CUT, MST e UNE, mas principalmente as do próprio líder do governo no Senado, o economista referencial do PT, Aloizio Mercadante. Que não cessa de propor uma folga na meta de inflação para 5,2%, como forma de conseguir recursos para mais investimentos públicos.
O pacote, é claro, vem enrolado em papel de presente: a ''agenda positiva'' que priorizaria, no momento, a ressurreição da ''Reforma Política'' como único instrumento capaz de reorganizar o quadro democrático brasileiro. O que é outra bazófia.
A quem serve um sistema de listas partidárias, controladas por burocracias internas, mantidas as exigências drásticas que impedem formação de partidos alternativos? Ou as autoritárias cláusulas de barreira, que liquidam as minorias? De que vale falar em fidelidade partidária se ela não for definida, realmente, como fidelidade programática, como forma de impedir que certas lideranças se permitam guinadas doutrinárias brutais após vencerem eleições?
Só valem e servem, evidentemente, para consolidar o status alienante de um Congresso majoritariamente conduzido pelo fisiologismo e pelo clientelismo.
Para as correntes da esquerda socialista democrática, o fulcro da discussão deve estar em outra prioridade, absolutamente ausente do jogo parlamentar, mas decisiva nas pressões que a ele impõem, tradicionalmente. A prioridade é lutar pela implementação de instrumentos legais que reforcem a posição da democracia direta sobre a democracia representativa. Que reforcem a voz rouca, mas voluntária e militante, das ruas, sobre o cantochão ensaiado, e constantemente hipócrita, dos corredores do Congresso.
Só assim, será possível barrar manobras vis como as ensaiadas por PT e PSDB, visando driblar a decisão do Supremo que obrigava a instalação das CPIs dos Bingos e das Privatizações. Só assim será possível barrar os estelionatários dos processos eleitorais. O resto é apenas parte da operação abafa.