Título: O medo de volta à Rocinha
Autor: Waleska Borges e Ana Paula Verly
Fonte: Jornal do Brasil, 28/06/2005, Rio, p. A13
Mais de um anos depois de deflagrada a guerra pelo controle do tráfico na Rocinha, moradores da favela e a vizinhança da Zona Sul voltaram a ser dominados pelo medo. Seguindo denúncias anônimas que levariam ao traficante Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-te-vi, policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) trocaram tiros com traficantes e permaneceram por quase dez horas na favela. Um adolescente morreu e outras três pessoas ficaram feridas. O conflito causou o fechamento da Auto-Estrada Lagoa-Barra por 10 minutos. Um helicóptero da Defesa Civil, que sobrevoava a favela, foi atingido por dois tiros de fuzil. A confusão começou por volta das 7h, quando quarenta policiais foram recebidos a tiros. A polícia tinha informações de que Bem-te-vi escondia-se numa casa na localidade conhecida como Roupa Suja, na Rua Dois. Segundo o delegado da Core, Marcos Reimão, homens da Rocinha planejavam invadir em bonde o Vidigal - favela vizinha.
Durante o conflito, o estudante Lucas Batista, 15 anos, que estava na laje da sua casa, ao lado do suposto esconderijo de Bem-te-vi, foi atingido no rosto por um tiro de fuzil.
Ele foi socorrido pelos policiais, mas não resistiu ao ferimento.
O pai do adolescente, o lanterneiro Fernando França, 41 anos, disse que seu filho estava na laje para ver a caixa d' água.
- Por causa da constante falta d' água, temos que mexer no reservatório. Mas eu o tinha proibido de subir na laje quando escutasse tiros ou fogos - contou o pai do adolescente.
Próximo ao esconderijo do traficante, os policiais encontraram nove carregadores, uma granada, um colete e roupas clamufadas. Pela manhã, um policial militar do 23º BPM (Leblon) fraturou a perna. Até o final da tarde, nove suspeitos foram detidos. O secretário de Segurança Pública, Marcelo Itagiba, informou que as ações policiais na Rocinha vão continuar ''para enfrentar e prender os bandidos fortemente armados que ameaçam a paz e a segurança dos moradores da comunidade e dos bairros vizinhos''.
A ação da polícia expôs a situação de conflito iminente na Rocinha. Mesmo com a saída da polícia, a tensão permanece, como apurou ontem o Jornal do Brasil, por causa do excesso de lideranças do tráfico no local. Moradores denunciam que a favela está tomada por traficantes de outras comunidades ligadas à facção criminosa Amigo dos Amigos (ADA).
- Eles (os traficantes) estão circulando pelas ruas armados em plena luz do dia. Tem muita gente de fora, não sabemos nem para quem podemos dar bom dia - conta um morador.
O delegado Rodrigo Martiniano,da 15ª DP (Gávea), disse que a delegacia investiga a chegada de traficantes de outras comunidades na Rocinha.
De acordo com informações da comunidade, os bandidos de outras favelas estariam praticando pequenos roubos e furtos na Rocinha e bairros vizinhos. Temerosos, os moradores contam que estes crimes não ocorriam quando o controle do tráfico da Rocinha estava nas mãos de Luciano Barbosa, o Lulu, morto pela polícia em abril do ano, quando foi deflagrada a guerra na favela. Em sete meses de conflitos, a morte chegou para 27 pessoas. Segundo moradores, por causa dos roubos, os moto-táxis que trabalham favela estariam procurando um estacionamento. Algumas motos desapareceram.
- Os moradores não têm mais liberdade. Com a chegada de tantos traficantes, tem muito cacique para pouco índio - disse o morador, referindo-se a Bem-te-vi e os seus comparsas.
Autor do livro Sorria, você está na Rocinha, o escritor Júlio Ludemir, acha que as ações dos traficantes na favela demonstram a vulnerabilidade do poder de Bem-te-vi.
- A fala natural da comunidade, de endeusamento do traficante, mudou. Falta identidade entre o tráfico e a comunidade - avalia Ludemir.
A inspetora Marina Magessi, tem outra opinião:
- Assim como Lulu, o Bem-te-vi não gosta de matança, por isso, não tem punido os ladrões que também são da Rocinha - diz Marina.
Os moradores contam que também sofrem represálias de traficantes rivais da Rocinha. Há duas semanas, quatro adolescentes teriam sido reconhecidas como moradoras da Rocinha num baile funk numa favela, ligada à facção Comando Vermelho, no Rio Comprido.
- As quatro tiveram os cabelos raspados e duas delas foram marcadas com ferro com a inscrição do ADA - comentou.