Título: Equador exige controle na fronteira
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Fonte: Jornal do Brasil, 28/06/2005, Internacional, p. A7
QUITO - As diferenças entre os governos de Alvaro Uribe e Alfredo Palacio sobre o conflito na Colômbia se acentuaram ontem, quando Quito anunciou a possibilidade de impor visto de entrada aos colombianos, se Bogotá não fortalecer o controle militar na fronteira.
A área foi sacudida por ações violentas no fim de semana, quando guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) entraram no país, vindos da província de Sucumbíos, no Equador. Ao chegarem no cocaleiro e convulsionado departamento colombiano de Putumayo (região amazônica), realizaram um ataque contra o Exército, matando 22 soldados.
Segundo Jorge Coral, prefeito de Puerto Asís - palco da ofensiva das Farc - além de terem vindo de Sucumbíos, foi para lá que os rebeldes fugiram após a matança.
Apesar de Uribe ter afirmado que ontem mesmo solicitaria ajuda de Palacio para combater as Farc na área da fronteira, o Equador deixara claro, desde cedo, que vai se manter à margem dos confrontos. Desde que chegou ao poder, em 20 de abril, o substituto de Lucio Gutiérrez se distanciou do governo de Uribe por se opor ao Plano Colômbia (contra o narcotráfico) e ao Plano Patriota (ofensiva contra a guerrilha). Palacio defende ''uma visão independente'' diante do conflito armado vizinho e retirou os 10 mil soldados mobilizados por Gutiérrez na área.
Na semana passada, o ministro equatoriano do Interior, Mauricio Gándara, já se queixava da falta de controle na fronteira, por parte de Bogotá, e denunciou que por causa disso ''o Equador tem agora mais zonas limítrofes com os territórios controlados pelas Farc''. Ontem, Gándara repetiu o discurso, afirmando que seu país está em ''emergência'' na fronteira, devido à falta de postos militares fixos colombianos na área, para controlar atividades ilícitas.
- Infelizmente, o Exército colombiano, não sei se por política ou por não terem condições de enfrentar o inimigo em tantas frentes de operação, carece de um devido e suficiente controle - criticou.
Gándara enfatizou que ''é cada vez maior o número de civis colombianos que não querem viver em Putamayo e cruzam a fronteira para adquirir terrenos no lado equatoriano''.
- Há tantos postos das Farc, das AUC (paramilitares) e do ELN (guerrilha) na área que o Exército mesmo não controla nada - afirmou.
O ministro acrescentou que a Colômbia deve fortalecer o controle militar na fronteira com o Equador - que mobilizou 8 mil soldados para proteger a soberania nacional -, se não quiser que sejam pedidos vistos de entrada aos colombianos. A medida está sendo interpretada como chantagem por Bogotá e a chanceler Carolina Barco a classificou como ''pouco útil''.
- As dificuldades que vimos no fim de semana não vão se solucionar com visto, que só prejudicaria as relações econômicas, turísticas e de investimento entre os dois países - disse.
Uribe, por sua vez, admitiu que falhas militares facilitaram a ação insurgente e que o governo está disposto a enviar mais tropas para a área, ''para combater as Farc em seu esconderijo''.
Mas para o analista Adrián Bonilla, diretor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, os temas em discussão ''são tradicionais da agenda política e diplomática destas nações vizinhas''.
- As relações não estão se deteriorando, sempre tiveram essas discrepâncias - assegurou. - São assuntos bilaterais que apenas não tinham vazado publicamente durante a gestão de Gutiérrez. Nem Colômbia nem Equador estão ameaçando o descumprimento da enorme quantidade de acordos que têm.