Título: Protesto de peso na Esplanada
Autor: Lorenna Rodrigues
Fonte: Jornal do Brasil, 29/06/2005, Brasília, p. D1
Dessa vez foram tratores que tumultuaram o trânsito da Esplanada dos Ministérios. O palco oficial de manifestações brasileiras recebeu ontem mais de 20 mil produtores rurais e 2 mil tratores no primeiro dia do tratoraço. Os manifestantes pediam a liberação de R$ 4 bilhões para cobrir o déficit dos produtores rurais, causado por fatores climáticos, pela queda do dólar e pelo alto custo de produção. Os agricultores exigiam ainda a criação de um seguro agrícola para garantir o ressarcimento dos investimentos na lavoura. Os manifestantes estacionaram os tratores por toda a Esplanada. Empunhando faixas e gritando palavras de ordem, levaram um boneco representando o presidente Lula. O auge da manifestação foi o ''afogamento'' do presidente, quando alguns manifestantes pularam no espelho d'água em frente ao Congresso Nacional. A decapitação do boneco foi feita em meio a aplausos e gritos de ''Fora Lula''.
- Os juros altos, a queda do dólar e duas safras de estiagem quebraram os produtores rurais. O que queremos é um empréstimo para pagar nossas dívidas. Não saímos daqui enquanto não tivermos nossas reivindicações atendidas - afirmou Leôncio Brito, um dos organizadores do movimento.
Durante a manifestação, alguns produtores rurais ameaçaram invadir o Congresso Nacional. Cerca de 400 Policiais Militares foram chamados para conter o tumulto. Os manifestantes só se acalmaram quando os deputados da bancada ruralista subiram no carro de som.
Entre os manifestantes, nem sempre os motivos do tratoraço estavam claros.
- Estamos aqui por causa desse tal de mensalão. O agricultor fica passando dificuldades enquanto eles ficam recebendo dinheiro do povo - reclamou o produtor rural Agenor Picolor, do Mato Grosso.
Depois de viajar mais de 30 horas para participar da manifestação, o agricultor Junaro Rambo, do Rio Grande do Sul, culpava os vizinhos argentinos pelo prejuízo dos produtores rurais.
- A culpa é do Mercosul. Nós compramos os insumos em dólar, quando a moeda americana estava em alta. Agora, na hora de vender, temos que aumentar o preço, enquanto a Argentina pode vender mais barato - reclamou.
A Comissão de Agricultura e Pecuária da Câmara recebeu 30 representantes dos agricultores. Às 17h, os deputados decidiram transferir a audiência para a Esplanada dos Ministérios, onde falaram ao resto dos manifestantes.
- Vamos pedir ao Congresso que obstrua a pauta de votações até que a dívida dos agricultores seja postergada e que seja criado um fundo de emergência para a agricultura - afirmou o deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO), presidente da comissão.