Título: Detidos suspeitos de estupro
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Fonte: Jornal do Brasil, 29/06/2005, Brasília, p. A8
ISLAMABAD - O Supremo Tribunal de Justiça do Paquistão determinou ontem a detenção de 13 acusados de envolvimento em um caso de estupro coletivo que ficou internacionalmente conhecido e assumiu contornos políticos, depois que o presidente Pervez Musharraf tentou abafa-lo. Os homens permanecerão presos ao menos até o fim do processo, que investiga a violação de Mukhtar Mai, 32 anos, por determinação de um conselho tribal.
- Estou muito feliz, me sinto extremamente satisfeita - disse Mai, cujo advogado pedira as detenções como forma de proteção. - Espero que aqueles que me humilharam sejam punidos - acrescentou.
Em março, a Alta Corte de Lahore, no estado de Punjab, reviu uma decisão que condenou à morte seis dos 14 acusados. Na revisão, cinco foram inocentados por falta de provas e um teve a pena capital convertida em prisão perpétua.
O presidente do Supremo, Iftikhar Chaudhry, disse que serão revistas as provas da acusação, no entanto, ainda não foi marcada a data em que Mai apresentará seu testemunho.
A violação ocorreu em 2002, por ordem de um conselho tribal como punição pelo suposto envolvimento do irmão de Mai - que na época tinha 12 anos - com uma mulher de uma casta superior, ato considerado crime de honra. A vítima, no entanto, diz que a acusação teve como objetivo encobrir abusos sexuais contra o menino por um grupo de homens de tal casta.
Segundo ativistas, o caso é um exemplo do brutal tratamento dado às mulheres, especialmente nas zonas rurais do país.
Em rara entrevista, Mai, que tem sido impedida pela polícia de falar, contou ao jornal Christian Science, na segunda-feira, seu calvário.
- Eu tinha três opções: cometer suicídio; cair em prantos para o resto de minha vida ou desafiar o cruel sistema feudal e tribal e enfrentar a dura atitude da sociedade.
Ela também contou ter recebido, desde então, várias propostas de casamento, mas acha que sejam por interesse.
- Podia ver dólares saltando nos olhos deles. Eu disse a cada um que se quisesse casar comigo deveria viver no vilarejo onde moro e servir às pessoas. Nenhum deles voltou - disse.
No início do mês, o caso ganhou conotação política quando o presidente Pervez Musharraf impediu Mai de viajar aos EUA, onde havia sido convidada por uma ONG para contar sua história. O veto provocou tensão entre Washington e Islamabad e o governo de Musharraf acabou cedendo. Mai já recebeu o passaporte.