Título: Valério confirma saques
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 30/06/2005, País, p. A5
BRASÍLIA - Em um depoimento que durou oito horas, na sede da Polícia Federal, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza negou ontem ser o operador do esquema do mensalão, propina supostamente paga a deputados para votar matérias de interesse do governo no Congresso. Segundo fontes da Polícia Federal, Marcos Valério não negou que tenha feito saques de R$ 20,9 milhões entre julho de 2.003 e maio de 2.005, mas atribuiu as movimentações financeiras a pagamentos de fornecedores, compra de ativos e distribuição de lucros entre os sócios das empresas DNA Propaganda e SMP&B Comunicação. Marcos saiu do prédio da PF aparentando nervosismo.
¿ Gente, não quero ser grosso! ¿ disse aos jornalistas. Marcos negou que tenha atribuído os saques em dinheiro à compra de gado, versão divulgada pela imprensa. Segundo a PF, ele se comprometeu a enviar ao delegado Luiz Flávio Zampronha todos os comprovantes de movimentações financeiras que fez entre 2003 e 2005. O empresário não especificou que tipos de ativos teria comprado.
O depoimento de Marcos foi considerado ¿evasivo¿ pela PF. Segundo fontes da polícia, a versão do empresário para o destino dos R$ 20,9 milhões em espécie teria sido considerada muito ¿confusa¿ pelos delegados que acompanham o caso. Valério poderá ser chamado a depor novamente, assim que for feito o cruzamento de documentos apreendidos pela PF. O delegado comparou as datas dos saques de Marcos com as viagens que ele fez a Brasília.
A PF vai solicitar uma perícia contábil nas movimentações financeiras e no patrimônio dele. O cruzamento da evolução patrimonial com as declarações de bens e de suas empresas será feito pelo Instituto Nacional de Criminalística.
A polícia aposta na ajuda da Controladoria-Geral da União para levantar todos os contratos suspeitos envolvendo as empresas de Marcos Valério com o governo. O diretor-geral da PF, delegado Paulo Lacerda, acredita que este é o grande momento para investigar eventual esquema de pagamento de propina. Em uma recente conversa, Lacerda fez referência às suspeitas que recaem sobre Marcos Valério e Delúbio Soares.
¿ A Polícia Federal não vai ter nenhuma complacência com Delúbio ou com quem quer que seja ¿ disse.
A mesma conduta será adotada em relação a Marcos Valério, comentou Lacerda. O delegado aguarda a conclusão do inquérito que investiga o ex-subchefe para Assuntos Parlamentares da Casa Civil, Waldomiro Diniz, que ficou três meses na Justiça Federal e só retornou à PF na segunda-feira.
À noite, o publicitário prestou depoimento à comissão de sindicância da Corregedoria-Geral da Câmara. O depoimento ocorreu a portas fechadas e Valério saiu sem falar com a imprensa. Segundo o relator da comissão, deputado Robson Tuma (PFL-SP), o publicitário respondeu a todas as perguntas feitas e apresentou diversos documentos. O corregedor da Casa, deputado Ciro Nogueira (PP-PI), disse que o depoimento foi tranqüilo, mesmo Valério tendo passado a tarde depondo na PF. Segundo ele, o publicitário respondeu às perguntas com firmeza.