Título: Estranho acordo de cavalheiros
Autor: Villas-Bôas Corrêa
Fonte: Jornal do Brasil, 01/07/2005, Outras Opiniões, p. A11

O cacoete presidencial de adiar decisões, que atropela as oportunidades favoráveis à espera nunca se sabe de quê, desaguou no recíproco constrangimento do estranho acordo do governo com um pedaço do PMDB e que pode ser avaliado conforme os interesses de cada parte. Números não mentem, mas iludem quando embaralhados pela necessidade de justificar conchavos contraditórios. Ainda agora, para o governo largado às traças no Congresso, com o bloco majoritário penosamente construído com as mais generosas concessões e a miopia que desfocou a visão do que se passava nas áreas de sombra, o compromisso de apoio e voto de 19 dos 22 senadores e de 52 dos 85 deputados da representação do partido nas duas Casas do Congresso não garante a maioria, mas alivia o sufoco, facilitando a negociação com os que faltam no balcão das legendas disponíveis. Neste Parlamento, como se sabe e se confere, vale tudo.

Mas, como o PMDB não resiste ao impulso masoquista da autodestruição, o racha oficializado - em manobra fulminante urdida nos bastidores, com os abaixo-assinados de senadores e deputados caindo nos braços abertos de Lula a justificar a retribuição à vista de quatro ministérios, dois a mais do que já estão no papo - deixa o presidente, deputado Michel Temer em situação vexatória.

O ridículo sempre mereceu o culto do PMDB, que há muito deixou merecer a qualificação de um partido. Balaio de bichanos que se unham e colecionam derrotas nas eleições presidenciais sem aprender a lição. No episódio da transa com o governo, a direção ou parte dela justifica-se invocando o argumento de que obedece à decisão da Convenção Nacional, que recomenda independência em relação ao governo e candidato próprio na sucessão de Lula.

Razões éticas não contam na análise da jogada em clima de desespero, quando a ronda das CPIs dos Correios, do mensalão e dos Bingos; da Comissão de Sindicância da Corregedoria da Câmara, em meio a contradições habituais em tais transes de crispação, deixam cada mais vez evidente que o governo e o Congresso terão contas a ajustar com a opinião pública. A ressaca do mar de lama chega à praia.

Não há pior momento para a celebração de acordo entre o governo e uma fatia da sigla que o seu órgão máximo decidiu que sustentasse a desbotada bandeirola da independência. Os dois lados ficam muito mal no tricô de interesses contaminados.

E se o PMDB da impostura da patriótica preocupação com a governabilidade - a nova máscara para todas as transações - arrisca-se ao entrar de olhos vendados no porão escuro do imprevisível, o presidente purga o pecado da arrogância, da omissão, do desinteresse pela administração, do despreparo e da hesitação em decidir.

Remendos no Ministério em meio à tempestade, para o último trecho dominado pela campanha eleitoral, a um ano e meio do fim do mandato, não podem ser vendidos ao distinto público como uma reforma para a grande arrancada das obras que não foram feitas nem sequer iniciadas. Depois, podar o monstrengo de 36 ministros e secretários é a confissão retardada, no jeito do Seu Obturado, de erro primário e fatal que engessou o governo.

Em mais uma embrulhada, Lula, segundo a bisbilhotice dos cupinchas, pretende ao percutir do bumbo, reduzir o número de ministros, gratificar o PMDB com quatro pastas com muitas verbas para obras - tudo com o corte do quinhão do PT, que pelo visto caiu em desgraça com o mensalão e as mutretas de ajuda aos aliados nas despesas de campanha.

A investigação avança em todas as frentes, com o prenúncio de novas dores de cabeça para o presidente. A quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico do publicitário Marcos Valério testará as denúncias da ex-secretária Karina Somaggio e de sua preciosa agenda. O líder do PTB, deputado José Múcio, afirma que participou da reunião na qual foi celebrado o acordo entre o seu partido e o PT para o financiamento da campanha, com a ajuda de R$ 20 milhões.

São muitos milhões no esgoto da corrupção. O governo precisa do conforto moral de aliados que compense as decepções petistas. Pena que as querelas paulistas empurrem o presidente da seção estadual do PMDB, Orestes Quércia, para a oposição.

Resta o consolo da solidariedade de esteio ético como dos deputados Jader Barbalho, Geddel Vieira e tantos figurões ilustres da galeria peemedebista.