Título: Juro é incapaz de deter inflação
Autor: Janaína Leite
Fonte: Jornal do Brasil, 22/10/2004, Economia, p. A-17

Conclusão é de estudo de economista da USP, que alerta para queda de investimentos no setor produtivo

Quando o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decide elevar os juros básicos, beneficia apenas o setor financeiro. A afirmação é do economista Alberto Borges Matias, da Universidade de São Paulo (USP). Em seu mais recente estudo, ele rejeita a hipótese de que a alta dos juros sirva ao controle da inflação, como sustenta o governo, ou do câmbio. Nos cálculos do consultor, a taxa do Brasil é cinco vezes maior do que as praticadas nos países emergentes. A comparação fica ainda pior diante das nações desenvolvidas. Por aqui, se paga 13,8 vezes os juros praticados por lá. Mais: na comparação com o G-7 (grupo dos sete países mais ricos), os juros cobrados dos brasileiros estão 35,8 vezes acima da média.

- Temos a maior taxa real de juros do mundo, com o menor volume de crédito em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) - critica Matias, dono da ABM Consulting. - Estamos diante de uma economia com fortes anomalias.

Cruzando as informações, Matias descobriu que o movimento de aceleração dos juros é paralelo ao da inflação, e não o contrário, como seria lógico supor. A correlação entre juros e câmbio também é mínima, no momento em que ambas as trajetórias são comparadas.

O economista descobriu ainda que toda vez que os juros sobem, cai a entrada de investimentos estrangeiros produtivos no país. Quanto aos títulos públicos, Matias lembra que os investidores institucionais são obrigados por lei a comprar papéis da dívida brasileira. Isso significa que fundos de pensão ligados a estatais, fundos de investimento e seguradoras iriam adquirir os papéis mesmo que a remuneração fosse menor.

Além disso, mais da metade dos títulos públicos (51,1%) está na carteira dos bancos públicos. Outros 28% estão concentrados na tesouraria das grandes instituições privadas nacionais - Itaú, Bradesco e Unibanco. Na média, observou Matias, as instituições financeiras que atuam no país têm um excedente médio de 25% aplicado em papéis da dívida interna.

- O governo pagou cerca de US$ 40 bilhões de juros ano passado. A manutenção dessa política monetária poderá conduzir o país a um caos inflacionário - alerta.

De acordo com a pesquisa, o economista percebeu também que, apesar da pouca oferta de crédito - carro-chefe dos lucros dos bancos em outros países -, as instituições financeiras só aceleram seus ganhos desde 1994, época da implementação do Plano Real. Só de 2002 para 2003, os ganhos das 15 maiores instituições cresceram 17,4%.

Os números, diz Matias, representam perigo, pois implicam maior risco do setor bancário, que teria se tornado dependente de altas taxas para fazer frente à estrutura de despesas. Sem contar o desvirtuamento da atividade produtiva, induzida a procurar ganhos financeiros em vez de operacionais.