Título: Crédito alimenta expansão do consumo
Autor: Kelly Oliveira
Fonte: Jornal do Brasil, 04/07/2005, Economia & Negócios, p. A17
O crédito consignado será o motor do consumo no segundo semestre deste ano. Apesar de a Confederação Nacional da Indústria (CNI) ter divulgado uma redução na confiança do consumidor, a intenção de compras subiu de 19% para 22% das pessoas entrevistadas em junho. O último relatório de inflação do Banco Central também indica manutenção do consumo, sustentado pela ampliação do crédito. De acordo com o BC, em maio as operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas chegaram a R$ 134,4 bilhões, um avanço de 36,8% em 12 meses. E o total do crédito ofertado por consignação em folha foi de R$ 17,827 bilhões, 120,01% acima de maio de 2004, quando o volume tinha sido de R$ 8,101 bilhões. No acumulado do ano, a alta foi de 41,4%.
Um dos fatores que explicam essa forte evolução, concentrada entre as pessoas que recebem os benefícios do INSS, é a baixa base de comparação, já que nos anos anteriores essa modalidade não existia. Calcula-se que 3,8 milhões de aposentados e pensionistas recorreram a esses empréstimos. Mesmo frente ao aumento expressivo, o potencial de avanço mantém-se alto, considerando-se que há no país cerca de 18 milhões de inativos, sem contar o crescimento previsto no segmento dos trabalhadores.
O interesse por essa linha é dado pelo seu baixo custo financeiro para padrões brasileiros. Enquanto no crédito pessoal de mercado a taxa de juros média no ano atingiu 77,2% em maio, os recursos do crédito consignado ficaram em 35,6%, conforme informou o Banco Central.
Essa diferença deve-se ao menor risco dos empréstimos consignados, já que as parcelas dos pagamentos aos bancos são descontadas diretamente em folha ou nos benefícios previdenciários.
Para o presidente do Banco Popular, ligado ao Banco do Brasil, Geraldo Magela, a tendência é de crescimento da oferta não só de crédito com consignação em folha, mas também do microcrédito, voltado para trabalhadores de baixa renda.
- Estamos em um crescimento natural dessa modalidade de crédito, que é usada para questões emergenciais, como compra de remédio - afirma.
Desde que o microcrédito foi lançado, há cerca de um ano, o volume de empréstimos do banco chegou a R$ 82 milhões, com 950 mil contratos. Os valores vão de R$ 50 a R$ 600 com encargos de 2% ao mês.
No Brasil, o público formado por pessoas excluídas do sistema financeiro é de 15 milhões. Segundo Magela, nesse contingente estão as pessoas que são alvo dos bancos para a abertura de conta corrente, com potencial para a obtenção de crédito.
Aliado ao aumento do crédito no mercado, que pode estimular o consumo, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, diz esperar que as taxas de juros caiam no curto prazo.
- Tivemos desaceleração da produção, mas o nível de utilização da capacidade instalada está alto. O que indica formação de estoque no primeiro semestre que será absorvido no próximo semestre. A demanda do consumidor será mantida - avalia.
Para o economista da Universidade de Brasília (UnB), Jorge Arbache, o mercado varejista se ajustou às altas das taxas de juros e o consumo tem sido estimulado pelo crédito com taxas mais baixas.
- Foi criado um mercado paralelo, principalmente de grandes lojas, que oferecem crédito com juros relativamente baixos, que não estão associados à taxa Selic (taxa básica de juros da economia, atualmente em 19,75% ao ano) - diz.
Entretanto, para Arbache, o desaquecimento da economia no primeiro semestre gera cautela na hora de se decidir por um investimento ou compra.
- Outro fator que deve ser acompanhado com atenção é que, embora tenhamos crédito crescente, muita gente comprometeu a renda com os empréstimos - acrescenta.