Título: Crise humanitária só é pior na África
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Fonte: Jornal do Brasil, 02/07/2005, Internacional, p. A8
Centenas de colombianos estão chegando toda semana à periferia das cidades ao longo da costa caribenha colombiana, como Barranquilla, em um fluxo movido pelo aumento da violência nos combates entre o Exército e guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Deixadas vulneráveis por um governo muito fraco para protegê-las, famílias deslocadas estão na miséria e sob uma exploração que as Nações Unidas classificam como a pior crise humanitária em andamento fora do continente africano. Milícias paramilitares ilegais, formadas em 1980 por donos de terras que tentavam proteger suas propriedades do avanço da guerrilha marxista, descobriram como é fácil oferecer ''empréstimos'' com 20% de juros ao mês a pessoas desesperadas.
- É muito caro, mas o que mais posso fazer? - perguntava uma mulher de 39 anos, que não se identifica, moradora de um poeirento subúrbio da cidade. Seu empréstimo foi de 50 mil pesos (em torno de US$ 21), tomado de um homem que diz fazer parte da ''máfia que é controlada pelos paramilitares''. Precisava do dinheiro para comprar as frutas que tentava revender na rua.
A mulher tem esperança de ganhar o suficiente com a venda para sustentar seus cinco filhos, comprar mais frutas e ainda assim pagar o empréstimo. Mas sabe que pouco ou nada sobrará. Sem dinheiro para adquirir as frutas, também não terá novo empréstimo.
- É uma armadilha. Eles dão o dinheiro mas não aceitam atraso. Nós sabemos que é uma ameaça - diz.
Outros dizem ter visto as conseqüências desse atraso. Assassinatos não são incomuns por ali. E os matadores são os mesmos jovens que passam todos os dias pelas ruas com suas motos, fazendo a coleta do dinheiro para seus patrões. A polícia é muito pequena para essa grandemente desconhecida onda de crimes, cujos alvos a ONU estima sejam os mais de 2 milhões de deslocados internos na Colômbia. A maior parte deixou suas casas no interior e se concentrou no Norte no entorno das cidades, incluindo a capital, Bogotá.
Líderes paramilitares estão em conversações com o governo para abandonar a disputa armada que travam contra os guerrilheiros. Enquanto entregam os uniformes como parte do acordo, muitos colombianos temem que passem a viver apenas do crime organizado.
- Os ''paras'' estão usando esses empréstimos para se infiltrar na sociedade colombiana a partir da base - avalia Mauricio Romero, analista da Universidade Rosário em Bogotá. - O objetivo disso é construir um poder político, como a máfia italiana fez nos Estados Unidos a partir dos bairros pobres de Nova York. Na eleição do ano que vem, muitos dos empréstimos serão perdoados desde que as pessoas votem nos candidatos apoiados pelas gangues.
Para Romero, as milícias, culpadas de crimes atrozes, ampliaram sua influência ajudando governadores, prefeitos e políticos a se elegerem. Os paramilitares garantem ter 35% do congresso, enquanto os refugiados seguem indefesos.
- Os próprios policiais acabam com você - diz um refugiado em Barranquilla - São pagos para tirar do caminho quem está investigando ou acusando os ''paras'' ou o crime organizado. Temos de manter a boca fechada se quisermos continuar com nossas famílias. Quem fala acaba sempre desaparecendo - completou.
A polícia diz que a acusação é falsa e que as autoridades aumentaram a quantidade de prisões de paramilitares como parte do esforço para erradicar o crime organizado. O governo, por sua vez, afirma gastar mais para cuidar dos refugiados, mas o orçamento é engessado. Já o cofre das milícias e dos rebeldes engorda em função do crescimento das vendas no mercado da cocaína.
A despeito do plano de segurança apoiado pelos Estados Unidos, a Colômbia tem apenas a metade dos oficiais de polícia por habitante em relação ao registrado nos países da União Européia, e seu exército é tão pequeno quanto o dos menores integrantes do bloco. A avaliação é do Instituto Seguridad y Democracia, de Bogotá. A capital tem, por exemplo, um terço da força policial (por 100 mil habitantes) que Nova York.
- O Estado é fraco e incapaz de aplicar a lei - avalia o diretor da ONG, Alfredo Rangel.
Enquanto o presidente Alvaro Uribe foca seu governo na derrota dos rebeldes, os paramilitares estão se tornando mais fortes nas áreas que controlavam, estabelecendo zonas fechadas e banindo coisas que desaprovam, como os cabelos compridos para os homens e as minissaias para as mulheres. A denúncia é de grupos de direitos humanos que acusam as milícias de violar a lei sem qualquer interferência das autoridades.
A ONU abriu escritórios no país de forma a apoiar o esforço do governo em melhorar os serviços básicos. Um deles fica no subúrbio da capital chamado Soacha. Ali, em maio, homens não identificados invadiram as salas de aula para avisar que as crianças não poderiam sair às ruas depois do entardecer. Dois adolescentes foram executados depois por terem sido encontrados fora de casa à noite.
- Quando fechamos nosso escritório, nunca depois das 17h, não sabemos o que ocorre de madrugada - completa Roberto Meier, representante do escritório da ONU para refugiados.