Título: Bush esfria ânimo ecológico
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 05/07/2005, Internacional, p. A8

O presidente George Bush tem no primeiro-ministro britânico, Tony Blair, seu mais importante aliado na guerra que muitos americanos rejeitam. Mas antes mesmo de desembarcar na Escócia para o encontro do G8 (grupo que reúne as sete nações mais industrializadas e a Rússia), Bush já mandou recado, deixando claro que não vai abrir mão de suas convicções nem para agradar ao país que, depois dos EUA, mais enviou soldados ao Iraque.

- Que ele não espere favores no G8. Tony Blair tomou decisões sobre o que achou ser o melhor para manter a paz e ganhar a guerra contra o terrorismo, como eu fiz - disse o presidente em entrevista que foi ao ar ontem pelo canal britânico ITN.

O encontro do G8 começa amanhã em Gleneagles, Escócia. Na pauta: a ajuda à África e o aquecimento global. Quanto aos países africanos, nenhuma polêmica, e Bush chega ao encontro com o anúncio de novas verbas para aquele continente. O problema é a postura que os EUA vêm adotando desde 1997, quando foi assinado pelos outros sete membros do G8 o Protocolo de Kyoto, no Japão, que prevê a redução das emissões de dióxido de carbono. Bush não concordou, não assinou e já disse que não assinará na Escócia nenhum documento similar.

- Se (o acordo que deverá ser feito em Gleneagles) for parecido com Kyoto, a resposta é 'não'. O tratado de Kyoto teria destruído a nossa economia - argumenta o presidente americano. Os países que assinaram o Protocolo de Kyoto (Japão, Alemanha, Grã Bretanha, França, Itália, Canadá e Rússia) se comprometeram a reduzir as emissões de dióxido de carbono para níveis 5,2 % abaixo dos índices de 1990, entre 2008 e 2012.

A postura do presidente americano, além de criar o já esperado mal-estar, vai, provavelmente, colocá-lo em rota de colisão direta com o colega francês, Jacques Chirac. Ao fim do encontro, é esperado que os presidentes dos oito países cheguem a um acordo em torno da chamada Declaração da Presidência, a ser divulgada. E Chirac já fez o anfitrião Tony Blair saber que faz questão de que o documento faça referências claras ao Protocolo de Kyoto.

George Bush até admitiu, durante a entrevista, que a mudança climática é um ''tema significativo, de longo prazo, com o qual teremos que lidar'', e que a atividade humana é ''de certa forma'' culpada pelo problema.

Outra polêmica que deve vir à tona até o fim do encontro deverá ser em torno do fato de que, embora se recuse a deixar que as emissões de gases em seu país sejam controladas pelo protocolo, Bush deverá pressionar China e Índia a controlarem as emissões. Os dois países estão entre as cinco nações emergentes também convidadas a participar do encontro - as outras são Brasil, México e África do Sul.

Antes de a reunião começar, os ânimos já esquentaram. No primeiro protesto relacionado à conferência, cerca de 100 manifestantes entraram em choque com a polícia escocesa ontem na capital, Edimburgo.

A manifestação começou pacificamente, numa passeata em que os ativistas dançaram ao som de tambores e sinos, no centro financeiro da cidade, dentro do cordão de isolamento colocado pela polícia. Mas, depois de bate-boca com a segurança, acabaram agredidos por eles. Pelo menos 21 pessoas ficaram feridas e 90 foram presas.

Estão previstos pelo menos dois grandes protestos para amanhã. Um deles, em Edimburgo, pretende pressionar o G8 a perdoar a dívida externa dos países pobres. O outro será em Gleneagles. ''Contra'' o G8. Mais de 10 mil policiais foram destacados para o evento.