Título: Farc usa reféns para ganhar tempo
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Fonte: Jornal do Brasil, 05/07/2005, Internacional, p. A9

Por aqui, nos movemos como peixes na água, entre camponeses, plantadores de coca e comerciantes - comenta Miguel, um guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) - enquanto manobra a canoa frágil com uma vara de bambu rumo ao reduto na selva onde o porta-voz Raul Reyes aguarda para uma entrevista. - Aqui não há soldados ou policiais, eles têm medo de topar com as Farc - completa, saudando uma família que passa noutro barco.

De tempos em tempos se pode ver pequenos grupos de guerrilheiros escondidos na mata ciliar, controlando o rio. À medida que o barco passa, ouvem-se assovios. Um, mais alto, leva Miguel a encostar e dar carona a dois outros rebeldes, com uniformes novos impecáveis, fuzis, metralhadoras e um rádio-comunicador.

Metros adiante, vê-se um grupo de guerrilheiras nadando. Os fuzis AK-47 estão alinhados na borda, ao alcance da mão.

- É a hora do banho das nossas camaradas - diz o guia.

Numa área vizinha, o camponês lança fertilizantes em um cultivo de coca. Não liga para a presença de dezenas de rebeldes.

- Todos aqui se conhecem, mas nada se vê, nada se sabe. Para sobreviver aqui é bom não fazer perguntas - explica Jorge, motorista da picape que assume a rota dali para a frente. Com um sinal, Miguel faz a canoa sumir nas árvores. Há dias, um helicóptero militar metralhou uma igual e matou cinco guerrilheiros.

Em uma clareira, Reyes, o número dois das Farc, aguarda junto à escolta de homens e mulheres fardados. Todos carregam fuzis e granadas e não saem de perto. Com uns quilos a mais e a barba grisalha, assume a conversa com os repórteres repetindo a mesma proposta que fizera em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, há quase dois meses: trocar os mais de 100 reféns que a guerrilha tem por quadros das Farc presos ou extraditados para os Estados Unidos. Junto, também quer que o governo colombiano interrrompa a ofensiva militar atual e inicie conversações de ''alto nível''. Bogotá já reiterou, várias vezes, que nenhum diálogo é possível e que o recente ataque a um posto da marinha em Putumayo, onde 23 soldados morreram, foi definitivo.

Reyes fica sério ao falar da senadora Ingrid Betancourt, a refém mais conhecida, seqüestrada desde 2000. O tema o incomoda, principalmente diante da insistência por uma prova de vida da candidata presidencial.

- Só o chefe máximo, Manuel Marulanda Tirofijo pode decidir sobre isso - afirma, acrescentando que a pressão do exterior pode acelerar uma eventual troca de prisioneiros. - Queremos uma negociação global com o governo, com os EUA ou com qualquer outro país. Como Uribe rechaça, temo que nossos presos ficarão ainda por muito tempo conosco se ele se reeleger por mais quatro anos - completa Reyes.

O segundo na guerrilha - e único do estado-maior do grupo que não está preso - acusa o presidente colombiano de querer empurrar o vizinho Equador para o conflito. Bogotá acusou Quito de permitir que a coluna que realizou o ataque no Putumayo se escondesse no país vizinho.

- Não matamos 22, mas 50 soldados na operação na base de Teteye. Nosso grupo respeita a soberania do Equador - disse, encerrando a entrevista.

O governo equatoriano, por sinal, perdeu a ajuda militar que recebia dos EUA e que era usada pelo governo de Lucio Gutiérrez, deposto em maio, para reforçar o controle nessa fronteira. Washington suspendeu a assistência militar diante da negativa do sucessor de Gutiérrez, Alfredo Palacios, de assinar o acordo garantindo imunidade aos militares americanos no Tribunal Penal Internacional (TPI). A represália foi confirmada pela embaixadora americana, Kristie Kenney. Os EUA repassaram US$ 70 milhões ao Equador entre 2002 e 2004, cifra que deve ser reduzida a 25% do total este ano.

Oito mil soldados equatorianos estão baseados ao longo de 600 km de fronteira. Segundo Kenney, a Casa Branca cortou a ajuda por ordem do Congresso. Washington tem acordo de uso da base de Manta, perto do Pacífico, até 2009. (Com AFP)