Título: Operação da polícia na Rocinha termina com aposentado morto
Autor: Ana Paula Verly
Fonte: Jornal do Brasil, 05/07/2005, Rio, p. A15
Uma semana depois da morte do estudante Lucas Batista, 15 anos, durante um tiroteio entre traficantes e policiais na Rocinha, a comunidade voltou a viver em clima de guerra. O aposentado Antônio Carlos Lima, 74 anos, morreu atingido por uma bala perdida durante a operação Papa-Léguas da Polícia Civil na favela. A operação, coordenada pela Polinter, tinha como objetivo prender o traficante Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-te-vi, mas terminou com dois detidos: o menor L. W., 15 anos, que segundo moradores é portador de doenças mentais, e o carteiro Saulo Silva, 30 anos, acusado de usar o uniforme dos Correios para transportar drogas para traficantes. Segundo a inspetora Marina Maggessi, desde sexta-feira a operação já prendeu 13 suspeitos de ligação com tráfico - quatro em São Paulo, um em Natal (RN) e oito no Rio de Janeiro.
- A partir de interceptações telefônicas de Bem-te-vi chegamos ao Saulo, principal atacadista do esquema - informou.
O tiroteio teve início às 8h e se intensificou por volta das 10h, quando três policiais foram baleados de raspão. O policial Luiz Augusto Pinto Monteiro foi levado para o Hospital Municipal Miguel Couto depois de ser atingido, mas retornou à operação com a cabeça enfaixada. Policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil (Core) e do 23 º BPM (Leblon) foram chamados para impedir que moradores fechassem a Auto-Estrada Lagoa-Barra, em protesto contra a morte do aposentado.
Morador da Rocinha há 56 anos, Seu Antônio, como era conhecido, chegou à favela aos 18 anos e, segundo um de seus filhos. nunca pensou em se mudar. Casou e teve oito filhos - quatro homens e quatro mulheres. O aposentado tinha uma pequena loja onde vendia doces para ajudar a pagar as contas de casa.
Na manhã de ontem, Seu Antônio tinha ido ao Sacolão Felicidade de Deus comprar verduras para o almoço. Não teve tempo de fugir ou se esconder quando começou a troca de tiros. Foi atingido na nuca. O corpo ficou no sacolão até às 13h30, quando seu filho, o comerciante Francisco Carlos Lima, 42 anos, ajudou a retirá-lo para ser levado ao Instituto Médico Legal (IML).
- Minha irmã comentou que ele tinha ido ao sacolão, imaginei que ele estava protegido, mas ele estava morto. Semana passada foi um estudante, hoje foi meu pai, um aposentado que lutava - chorava Francisco.
Os tiros destruíram transformadores e romperam canos d'água, deixando a comunidade sem luz e abastecimento durante todo o dia. Perfurados pelas balas, os canos jorravam água, alagando as ruas da parte de baixo da favela. Com medo da ocupação policial, as crianças da comunidade não foram à aula.
- Eu tenho medo de deixar minha filha de oito anos sair quando tem tiroteio. Esta semana ela já faltou aula três vezes. Se continuar assim, vai perder o ano - lamentava a dona-de-casa Tânia Hermínio, 39 anos.
O motorista David Paula de Souza, 23 anos, fazia a entrega de peças de carne num açougue da favela quando assistiu ao próprio caminhão ser alvejado na troca de tiros. Com 43 perfurações, que atingiram pneus, vidros e lataria, o veículo ficou completamente destruído.
- Eu entrei no açougue para me proteger. Quero ver quem vai pagar o meu prejuízo, porque eu estava trabalhando - reclamava.
O tiroteio também impediu que o carro de uma funerária pudesse entrar no morro, para levar o corpo do aposentado José Jorge, 64 anos, morto durante a madrugada após um enfarte. Sem opção, parentes e amigos improvisaram o transporte do corpo numa rede.
- Agora, toda segunda-feira é isso, a gente acorda com tiros. Isso não é hora de fazer operação, tem muito trabalhador e criança na rua - dizia um amigo do aposentado, que preferiu não se identificar.
Na saída da Rocinha, quando a operação já tinha terminado, policiais apreenderam o menor L.W., 15 anos, que soltava pipa na rua. Segundo moradores, o adolescente é portador de doenças mentais e não tem nenhuma ligação com o tráfico. Quando a mãe tentou impedir que o levassem, teve uma convulsão e desmaiou, sendo socorrida por familiares. L. W. foi levado para a Polinter. Revoltados, moradores tomaram as ruas, acusando policiais de provocar a violência no local. De acordo com o delegado responsável pela operação, Carlos Eduardo Almeida, o menor foi detido por desacato à autoridade e as viaturas foram recebidas a tiros pelos bandidos.
- Não vamos marcar horário para fazer incursão. Esta é uma operação de inteligência - explicou o delegado.