Título: Manhã de pânico e balas perdidas
Autor: Ana Paula Verly
Fonte: Jornal do Brasil, 05/07/2005, Rio, p. A15
Aos 11 anos, o pequeno Carlos Henrique parecia ser ainda mais novo. O porte franzino não o impedia, porém, de ser valente no campo. A paixão pelo futebol levou o menino, flamenguista doente, à equipe pré-mirim do Botafogo, onde era zagueiro. Sonhava em chegar ao futebol profissional para tirar, da violência da favela, a mãe, agente de saúde de prefeitura, o pai, pedreiro desempregado, e as duas irmãs. Os sonhos de Carlos Henrique terminaram na noite de domingo, quando, por volta das 23h, ia com o pai para uma festa junina no Conjunto Salsa e Merengue, na Vila dos Pinheiros, onde morava com a família. No momento em que policiais entravam na favela, o menino foi atingido na cabeça por uma bala de fuzil. Em desespero, o pai, Carlos Alberto Silva, tentou correr com o filho nos braços em busca de socorro. Só então percebeu que também havia sido atingido no tórax e de raspão na cabeça, caindo a poucos metros do carro. O disparo arrancou a parte de cima da cabeça do menino. O tiroteio começou quando entrava na favela o blindado Pacificador - idêntico ao Caveirão, do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Na festa junina da favela, que faz parte do Complexo da Maré, em Bonsucesso, havia cerca de 5 mil pessoas - boa parte delas, crianças.
Quem presenciou a cena conta que, na roda gigante, as crianças ameaçavam se jogar, temendo as balas. Pais e filhos correram para se abrigar e, segundo eles, o Pacificador entrou na favela disparando.
O corpo de Carlos Henrique ficou no local quase 12 horas até ser recolhido, às 10h de ontem. Carlos Alberto Silva, 31 anos, pai do menor, foi levado para o Hospital Geral de Bonsucesso, onde foi operado, e não pôde ir ao enterro do filho, no fim da tarde.
- Eu quero justiça. Isso não pode ficar assim. Meu filho não era traficante, era uma criança, um menino sonhador. Ele só tinha um sonho, mais nada - desesperava-se a mãe, Renata Ribeiro Reis, 30 anos, no enterro do menino, ao lado de cerca de 300 pessoas que acompanharam o sepultamento, no Cemitério do Caju.
No início da tarde de ontem, o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Hudson de Aguiar Mirante, apresentou a versão da polícia para o ocorrido na Vila dos Pinheiros na noite anterior. Segundo Hudson, o Pacificador foi à favela atrás de bandidos que teriam roubado um jipe Cherokee, no domingo, em São Cristóvão. De acordo com o comandante, com a chegada da polícia, traficantes que estavam em um Fox tentaram sair da favela e teriam atirado no Fiesta onde estavam Carlos Henrique, o pai e o jogador de futebol George dos Santos Paladino, acompanhado da namorada. Os bandidos teriam atirado porque o Fiesta estava na passagem.
Moradores, no entanto, afirmam que não houve confronto. Para provar que houve troca de tiros, o comandante da PM apresentou ontem o blindado com sete marcas de tiros.
- Não existe pânico nem medo entre os motoristas do Rio. O que existe são localidades onde os traficantes enfrentam a polícia, que trabalha de forma a proteger a população. As operações estão dando certo e vão continuar dando certo - afirmou o secretário estadual de Segurança, Marcelo Itagiba.
A morte de Carlos Henrique revoltou centenas de moradores. Na manhã de ontem, cerca de 400 pessoas seguiram em protesto em direção à Linha Amarela. Os manifestantes jogaram pedras na polícia, que revidou com tiros, gás de pimenta e granadas de efeito moral. Quando chegaram à pista - no local conhecido como Faixa de Gaza -, os manifestantes foram recebidos a tiros pelos traficantes da Favela do Timbau, controlada por uma facção rival, do outro lado da Linha Amarela. Um manifestante foi baleado na perna e socorrido do Hospital Geral de Bonsucesso. Cem policiais reforçaram a segurança e interromperam o trânsito nas linhas Amarela e Vermelha por meia hora por causa do tiroteio.
Motoristas entraram em pânico. Alguns abandonaram os carros para sair da linha de fogo. Morador de Bonsucesso, Sandro Souza, 34 anos, ia em direção à Ponte Rio-Niterói e contou que viveu momentos de tensão.
- É a segunda vez que isso acontece comigo em dois meses. Corremos para nos abrigar e, na volta, tinham roubado meu celular e a mochila e a da minha namorada - contou.
Os manifestantes também tentaram fechar o trânsito na Avenida Brasil. Eles ainda fizeram um protesto, no fim da manhã, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do Estado.
O comandante do 22ºBPM (Maré), coronel Mário Sérgio Duarte, disse que o policiamento na favela está reforçado para evitar novos confrontos. No início da noite, quando voltavam do enterro do menino, manifestantes foram em protesto até a Vila do João pela pista lateral da Avenida Brasil no sentido Zona Oeste.