Título: Deputado Carlos Rodrigues nega ser o 'pai do mensalão'
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 07/07/2005, País, p. A5

Acusado por Roberto Jefferson (PTB-RJ) de ser o inventor do mensalão, o deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), também conhecido como Bispo Rodrigues, admitiu ontem ter se reunido com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e com o ex-secretário-geral do partido Sílvio Pereira para fazer negociações políticas. No entanto, ele negou ser o pai do mensalão. Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, Rodrigues disse que em nenhum momento discutiu ajuda financeira com Delúbio, mas revelou uma faceta até agora pouco conhecida do ex-tesoureiro, que se afastou ontem do cargo: a de negociador político.

- Estive algumas vezes com o Delúbio depois da eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (em 2002). Discutimos alianças entre o PT e o PL pelo país - declarou.

Ele citou como exemplos as gestões feitas pelo petista junto a Rodrigues para que o PL apoiasse candidaturas petistas às eleições municipais de Belém e Recife, no ano passado.

Em outra ocasião, o ex-tesoureiro teria feito as vezes de chanceler, ao pedir que a Igreja Universal, à qual o deputado era ligado à época, apoiasse um candidato socialista a presidência de Moçambique. A Universal tem atividades naquele país africano.

Rodrigues também confirmou ao Conselho que negociou o loteamento de cargos no governo com Pereira, que se afastou da Secretaria Geral do PT na segunda-feira. Ele listou os cargos que indicou na administração federal: duas diretorias da Companhia Docas do Rio de Janeiro, um diretor do Serviço de Patrimônio da União, o diretor-administrativo de Portus (fundo de pensão do sistema portuário) e um diretor do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes.

- Foram indicações do PL, mas nunca existiu a orientação para que os diretores contribuíssem com o partido.

Em vários momentos, Rodrigues negou que seja o pai do mensalão, esquema que teria surgido, de acordo com Jefferson, na Assembléia Legislativa do Rio, pago com recursos da Loterj, empresa lotérica.

- Nunca fui deputado estadual. Estive na Assembléia no máximo dez vezes, incluindo a minha diplomação como deputado - afirmou.

Ele também negou ter pressionado o líder do PTB na Câmara, José Múcio (PE), para aceitar o mensalão, em reunião da qual teriam participado também Pedro Corrêa (PP-PE), Pedro Henry (PP-MT) e Valdemar da Costa Neto (PL-SP).

Rodrigues chorou duas vezes no início do depoimento de três horas, ao explicar sua briga com a Universal - ele perdeu o título de bispo após se envolver com o escândalo da Loterj. A sessão chegou a ser interrompida para ele se restabelecer.