Título: Lula: ''Os Parlamentos são fundamentais''
Autor: Claudia Mancini
Fonte: Jornal do Brasil, 27/05/2005, País, p. A7
Um dia depois de criada a CPI presidente ressalta, em Tóquio, importância do Legislativo como representante de aspirações populares
TÓQUIO - Em meio à atual crise entre o Executivo e o Legislativo e algumas horas depois de o governo ter perdido a batalha para barrar a criação da CPI dos Correios no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressaltou, em Tóquio, o papel fundamental dos Parlamentos. São onde ''damos forma e expressão à vontade coletiva''. definiu. A declaração estava contida no pronunciamento ao Dieta, o Legislativo japonês. Mais de uma vez o presidente ressaltou a importância da Câmara e do Senado como representante de aspirações populares.
Durante o discurso de cerca de 10 minutos, Lula afirmou que o Brasil está crescendo e fez reformas que deixam o país mais interessante ao investidor estrangeiro. Atrair capital japonês para o Brasil é um dos principais objetivos da viagem. Daí a importância de convencer os japoneses sobre o país ser parceiro confiável.
- Pretendo que o Brasil volte a ser referência prioritária para os investimentos - observou Lula.
Os investidores do Japão se afastaram do país a partir dos anos 80, com a crise econômica e período pelo qual a economia asiática também passou por dificuldades e reestruturação. Nas décadas de 60 e 70, a relação bilateral foi muito mais intensa. De 1971 a 1975, dos investimentos externos do Japão, 10% se encaminharam para o Brasil, o equivalente a US$ 1,25 bilhão. O percentual caiu, chegando a 0,9% entre 1986 e 1990, algo em torno de US$ 1,97 bilhão. A participação média de 1971 a 2003 foi de apenas 1,8%, com um acumulado de US$ 15,6 bilhões.
Lula citou melhorias em indicadores das contas públicas e aumento das exportações para reforçar a tese que o país está menos vulnerável.
- Estamos colhendo os frutos de uma política econômica consistente e responsável. Queremos criar bases sólidas de um crescimento sustentável para os próximos 20 anos - destacou o presidente.
Aplaudido pelos parlamentares japoneses, Lula se referiu ao apoio mútuo que Brasil e Japão se dão sobre a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o braço mais importante da ONU. Com Alemanha e Índia, os países apresentaram um projeto de reforma que aumenta o número de assentos permanentes de 5 para 11, lugares ambicionados pelo quatro, e dos rotativos de 10 para 14.
Lula assegurou contar com o apoio do Japão na Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), na qual se negociam derrubadas de barreiras ao comércio internacional, inclusive em agricultura, o que beneficiaria o Brasil. Ocorre que o Japão é um dos países mais protecionistas em agricultura.
O presidente buscou passar a idéia de que o Brasil está se integrando a outras economias, também um atrativo para investidores, citando ''um momento de grande dinamismo do Mercosul''. O comércio do bloco é crescente, embora haja divergências entre os alguns setores do Brasil e da Argentina. Também falou da Comunidade Sul-Americana de Nações (CSA), criada em dezembro, que ainda não definiu sobre quais projetos de integração física se focará.
A visita ao Parlamento japonês foi o primeiro compromisso do presidente no Japão. É a primeira vez que Lula desembarca no país depois da viagem realizada há 30 anos, a convite dos sindicatos de trabalhadores japoneses. Lula estava acompanhado de ministros, parlamentares e da mulher, Marisa Letícia. O primeiro-ministro Junichiro Koizumi acompanhou o presidente na cerimônia.
Logo depois, os dois dirigentes se encontraram e Lula propôs uma parceria para a criação de uma matriz energética no Japão que inclua etanol e biodiesel, este último um produto em que o Brasil também vem investindo. Será criado um grupo de trabalho sobre biomassa para estudar o projeto. Em seguida, Koizumi ofereceu um jantar à comitiva presidencial brasileira.