Título: Genro reage à perda de espaço
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Fonte: Jornal do Brasil, 11/07/2005, País, p. A3
Um dia depois de eleita, a nova Executiva Nacional do PT se reuniu ontem, em São Paulo. O objetivo era debater os rumos no partido, que vive a mais grave crise política de sua história. No encontro, o novo presidente da legenda, Tarso Genro, anunciou uma agenda de curto prazo e um planejamento de médio prazo, para os próximos 37 dias. Além de dar mais transparência às contas, o partido tenta reagir à perda de espaço e prestígio junto ao governo Lula.
A entrada de Genro para conduzir a transição até a eleição interna direta, mantida em 18 de setembro, acalma os ânimos no PT. Ele foi eleito sábado para substituir José Genoino, que renunciou ao cargo no mesmo dia.
Na reunião de ontem, Genro explicou a decisão de montar um grupo de trabalho para avaliar as finanças da legenda e anunciou uma nova reunião da Executiva Nacional em 19 de julho para traçar novas estratégias. De imediato, ficou decidido que será aberto um livro de agenda na tesouraria, no qual serão listadas todas as reuniões de integrantes do PT relacionadas a assuntos financeiros. A lista deverá detalhar data, hora, local e tema dos encontros. Qualquer negociação que não estiver registrada no livro será considerada ilegal.
Em mais uma atitude em busca de transparência, os petistas decidiram acolher pedido de instalação de uma comissão de ética. O grupo, segundo Genro, avaliará os procedimentos e as denúncias levantadas pela imprensa contra integrantes do partido. Na avaliação do novo presidente, isso não significa a presunção de culpa dos envolvidos em suspeitas.
Também foi aprovada uma resolução que busca monitorar o trabalho dos ministros do partido. A medida determina a prestação formal e periódica de contas sobre os assuntos de suas pastas. Segundo Genro, a idéia é conferir transparência a um relacionamento que já acontecia nos bastidores.
A determinação segue na contramão da promessa de delimitar mais claramente a separação entre partido e governo. A suposta ''confusão'' entre as duas instâncias é apontada internamente como a origem de muitos dos atuais problemas. Nada simbolizou melhor essa mistura do que as funções confiadas a dois dirigentes sem cargo no governo e sem mandato: Delúbio Soares, ex-tesoureiro, e Silvio Pereira, ex-secretário-geral - este último, responsável pelo loteamento político de cargos de confiança no governo. Para Genro, a medida não significa que o PT busque interferir nas ações de governo, mas que tem a ''obrigação de colaborar'' com ministros da sigla.
O ex-ministro do Trabalho Ricardo Berzoini, que assumiu a Secretaria-Geral do PT, no entanto, disse que o partido precisa ter consciência de que é a principal sigla do governo, mas precisa separar governo e partido. O PT tem hoje 17 dos 33 cargos de primeiro escalão do governo, mas perdeu pastas importantes para o PMDB, como Saúde e Minas e Energia. A tentativa de controlar de perto sua fatia é uma reação à ''despetização'' do ministério. A preocupação com a timidez na influência junto ao governo é nítida sobretudo nas alas minoritárias do PT, que acusam o partido de ceder espaço para legendas fisiológicas como PL, PP e PTB.