Título: Milhões em nome de Deus
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 12/07/2005, País, p. A3

No embalo das investigações do pagamento do mensalão a parlamentares, a Polícia Federal seguiu uma denúncia anônima e descobriu sete grandes malas recheadas com mais de R$ 10 milhões em notas de R$ 5, R$ 10, R$ 20 e R$ 50. O dinheiro estava em um avião Citation X, fretado pela Igreja Universal do Reino de Deus, no hangar da TAM, em Brasília. O deputado federal João Batista Ramos da Silva (PFL-SP), que estava no avião, foi conduzido junto com outros bispos da igreja para a PF, onde passaram o dia tentando dar explicações. Depois de passar dez horas e meia contando o dinheiro, às 21h30 a PF divulgou o total apreendido: R$ 10.202.690. As primeiras informações ligavam o carregamento do dinheiro às denúncias do mensalão. O deputado ficou irritado ao ser perguntado se tinha pago ou recebido mesada em Brasília.

¿ Esta pergunta é impertinente. Não tenho nada a ver com mensalão ¿ respondeu João Batista.

O deputado, um dos homens de confiança de Edir Macedo, o comandante da igreja, admitiu que não declarou à Receita Federal o transporte das malas. Mais tarde, a Igreja Universal do Reino de Deus divulgou nota assumindo que o montante apreendido era resultado de ¿doações de fiéis¿, o dízimo cobrado pela igreja nos cultos de sábado, durante uma comemoração especial do aniversário de 28 anos da igreja na Região Norte. O dinheiro seria transportado para São Paulo, onde seria utilizado no pagamento de água, luz, móveis e imóveis da igreja. Segundo explicou o deputado na PF, o avião saiu de Manaus às 4h passou por Belém e Brasília, faria uma escala em Goiânia e terminaria a viagem em São Paulo.

A versão da igreja, no entanto, não foi suficiente para a PF. Vários pacotes eram de notas de R$ 20 e R$ 50 que, segundo os policiais, estão novas, sem amassar e sem sinais de que tenham sido usadas. Os policiais não encontraram notas de R$ 1 ou R$ 2. A maior parte é de R$ 50.

O foco da suspeita está principalmente no fato de que o único documento apresentado à PF pelo deputado para justificar a origem e a legalidade do dinheiro é uma declaração da igreja, assinada pelo próprio deputado, que é o presidente da instituição. O documento afirma que o dinheiro resulta do dízimo, mas não faz referência ao valor transportado. Nem o parlamentar soube dizê-lo de pronto. Segundo o delegado encarregado da investigação preliminar, David Sérvulo Campos, chefe da Delegacia de Crimes Financeiros, as explicações dadas pelos acompanhantes do deputado são ¿insuficientes¿.

¿ Não recebemos nenhuma comprovação veemente de que o dinheiro seja da Universal ¿ disse Campos.

João Batista Ramos está entre os indiciados em inquérito do Supremo Tribunal Federal por falsidade ideológica e crime e contra a ordem tributária, em investigação que apura sua sociedade com o também bispo e senador Marcelo Crivella (PL-RJ) na TV Cabrália. A Constituição proíbe detentores de imunidade parlamentar de exercer função de direção em concessionárias de radiodifusão.

O deputado poderá responder a novo inquérito no STF. A PF não ficou convencida da versão do deputado e vai encaminhar a papelada da apreensão do dinheiro ao STF, a quem cabe investigar parlamentares, para que sejam apurados possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal.

João Batista Ramos da Silva, conhecido como Bispo João Batista, passou de ex-auxiliar de escritório da companhia de gás Gasbras, no Rio, e de funcionário da Embratel, a executivo da área de comunicação pelas mãos da Universal.

A Universal também já teve um outro parlamentar poderoso dentro da organização, o Bispo Rodrigues. Segundo a igreja, ele foi afastado depois de ter o nome envolvido no caso Waldomiro Diniz. Semana passada, o deputado chorou ao rebater as acusações de Roberto Jefferson de que seria o pai do mensalão na Alerj.