Título: A responsabilidade do PMDB
Autor: MAURO SANTAYANA
Fonte: Jornal do Brasil, 13/07/2005, País, p. A2
Ao aceitar a participação no Ministério, contra a vontade dos governadores do partido e da Comissão Executiva, os novos ministros do PMDB assumem grave responsabilidade. Deverão cuidar das pastas com estrita vigilância ética. Os governadores do PMDB acreditam, e com razão, que o partido se encontra em posição parecida à de 1984, quando tinha dois governadores a mais do que hoje, e foi possível dar a Tancredo o suporte político para a liderança da transição democrática. Naquele momento, embora já fosse o maior partido político brasileiro, tornou-se necessária a aliança com a facção dissidente do PDS - o Movimento da Frente Liberal - e com as entidades de esquerda para que se obtivesse a maioria dos votos no Colégio Eleitoral. As circunstâncias inverteram os termos da coligação, e coube a Sarney, que se inscrevera no PMDB para o cumprimento da lei eleitoral, assumir a Presidência da República. O presidente foi fiel ao Compromisso Democrático e manteve, durante dois anos, os ministros escolhidos. Mesmo assim, os militantes do PMDB se sentiram naturalmente frustrados. Não fora o PMDB histórico, o que crescera nos embates contra a ditadura, que chegara à mais elevada magistratura do país.
Em 1989, quadra política difícil, quando repercutiam, no Brasil, fatos mundiais como a queda do muro de Berlim, com suas conseqüências penosas para a esquerda, o país se viu assolado pelo vendaval Fernando Collor. Pode-se dizer que Collor foi o primeiro grande êxito do chamado marketing político. As massas foram seduzidas e enganadas pela hábil demagogia do alagoano, membro de velha e poderosa oligarquia brasileira, que se apresentava em nome da ética e da justiça social. Não foi possível a Ulysses Guimarães, o bravo resistente contra a ditadura, empolgar o eleitorado que votava pela primeira vez para a Presidência da República, depois de 25 anos de jejum democrático.
Os dois anos que se seguiram ao impeachment de Collor serviram para que a cidadania se refizesse do estupor, graças ao zelo do presidente Itamar Franco. Seu governo não transigiu com qualquer suspeita de corrupção. Quando o governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, disse que tinha um dossiê contra o ministro Jutahy Júnior, Itamar se dispôs a recebê-lo e chamou a imprensa para que as acusações fossem públicas. Provou-se que eram vazias.
Para dar toda transparência ao governo, Itamar criou uma comissão constituída de cidadãos de excelente reputação, estranhos ao governo, a fim de examinar as denúncias de peculato no âmbito do Poder Executivo. Um dos primeiros atos de Fernando Henrique Cardoso, como se noticiou na época, foi o de dissolver o grupo, do qual participavam, entre outros, os professores Cândido Mendes e Modesto Carvalhosa. Se bem estivesse sem partido, o presidente Itamar Franco fora militante histórico do PMDB, do qual se desligara em razão de dificuldades em Minas. Reconduzido à agremiação, a convite, e sob a insistência de Paes de Andrade, Itamar seria o candidato natural da legenda às eleições de 1998, quando teria frustrado a reeleição de Fernando Henrique. Todos os recursos foram utilizados para impedir essa candidatura - da compra de votos à agressão física - durante convenções do PMDB, em Brasília, conforme noticiaram os jornais da época.
Os governadores e a Comissão Executiva do PMDB sentem que é chegada a hora de o partido preservar-se, e trabalhar para a disputa eleitoral do ano que vem. O exame frio da situação política de hoje mostra que, com todos os seus pecados, que não são poucos (aí se encontram Romero Jucá e outros, novos e velhos acusados de corrupção), o partido é o que tem maior presença nacional, além de bom desempenho administrativo nos estados que governa.
Os ministros do PMDB só legitimarão o discurso, de que participam no governo para manter a estabilidade política, se forem melhores dos que os antecessores. Na eficiência, na defesa dos interesses nacionais, na austeridade e na moralidade administrativa.