Título: Levanta Brasília
Autor: Chico Vigilante
Fonte: Jornal do Brasil, 14/07/2005, Opinião, p. D2
Ao assistir o programa televisivo da Rede Globo Casseta e Planeta, do qual sou fã, no dia 12 de julho, testemunhei uma cena inaceitável. Num trecho do programa, o humorista Helio de La Pena interpretava um personagem que trazia em suas mãos uma mala. No decorrer da cena, outro comediante perguntou de onde ele estava vindo. Ao dizer que chegava de Brasília, o outro perguntou o que ele achou de lá. Como desfecho da piada, o personagem interpretado por Helio de La Peña disse que não gostou porque em Brasília só tinha prostituta e ladrão.
Esse incidente me deixou perplexo, visto que isso é só uma reprodução do pensamento que se tem sobre a cidade. As sátiras feita pela grande mídia sobre Brasília, faz nascer uma cultura nacional de que a capital federal é povoada pela escória do Brasil. Eu, que já estou há mais de 25 anos nesta cidade, posso dizer que essa realidade não condiz com Brasília.
No exterior, o Brasil é resumido a futebol e carnaval. Num antigo episódio de um desenho americano (Os Simpsons), o Brasil era mostrado povoado por macacos. O prejudicial é que esse tipo de imagem torna-se parte do imaginário popular, formulando um pré-conceito. Sendo assim, há o risco de se tornar lugar comum que quem mora em Brasília é ladrão ou prostituta.
Dizem que em Brasília há políticos safados, mas é bom ressaltar que eles não são exclusivamente naturais de Brasília. A política do Distrito Federal é motivo de exemplo. O Senado Federal cassou o senador Luis Estevão e a Câmara Legislativa do Distrito Federal cassou Adão Xavier. Não se pode atribuir a uma cidade uma cultura de corrupção que existe desde os primórdios do Brasil.
Brasília não é um celeiro de corruptos. Brasília não é uma ilha de fantasia. Brasília não é propriedade de marajás. Brasília não é exclusiva. Brasília é concreta. Brasília é feita de carne e concreto. Brasília é feita do que há de mais puro no ser humano - a esperança. Brasília, embora com apenas 45 anos, tem uma história grandiosa que não permite ser jogada no lixo.
Brasília nasceu de um sonho. Dom Bosco, no século XIX, vê, num sonho, Brasília. Uma cidade que ainda não existia. No sonho ele teve a localização exata da cidade, tais como paralelos e meridianos. No sonho, ele dizia estar vendo uma maravilhosa civilização. No final da década de 1950, JK levou adiante o sonho de Dom Bosco. Brasília foi criada a partir dos traços de Oscar Niemayer, das idéias de Lúcio Costa e das mãos de milhares de trabalhadores que acreditaram naquele projeto nacional e com suor, desbravaram o cerrado e ergueram em 3 anos e 11 meses uma das mais belas e modernas capitais de todo o mundo.
A engenhosidade de se aproveitar das características do lugar e dos recursos disponíveis para modificar o clima, obtenção dos recursos energéticos, hídricos, alimentares e sanitários são salutares na história de Brasília. Quem não se encanta com um projeto urbanístico que permite que a família encontre tudo que se precisa perto de casa. Superquadras e eixos fazem parte da poesia de uma cidade que pulsa.
Brasília é uma cidade viva. Uma cidade feita por tantos Joões e Marias que se identificam com a cidade. Uma cidade que é uma mistura de todo o Brasil. Em Brasília não há sotaques. O Brasil se encontra aqui. Na gastronomia, no teatro, na música... Brasília tem um pouquinho de cada canto do Brasil. Ao chegar em Brasília, há uma sensação de se sentir em casa. Brasília é uma cidade que sorri, que sofre, que luta, que dá o suor para brilhar a cada dia.
Eu sou contra a censura, mas ninguém pode generalizar e dizer que nós, habitantes do DF, somos prostitutas ou ladrões. É preciso se mobilizar. Não podemos, dia após dia, ser rotulados com expressões negativas. Temos identidade ética e moral para cobrar respeito.
Gostaria de conclamar aos brasilienses de nascimento e de coração que se unam em defesa da cidade. O Brasil e o mundo precisam ter a certeza de que Brasília é formada por gente honesta e trabalhadora. Que cada bancário, dona de casa, frentista, vigilante, professor, médico, jornalista e tantos outros profissionais, renomados e anônimos, adotem a defesa de Brasília como uma questão de honra. Levanta Brasília!