Título: Tutores de salários
Autor: Samantha Lima
Fonte: Jornal do Brasil, 17/07/2005, Economia & Negócios, p. A17
O dia do pagamento deixou de ser, para algumas empresas, a fronteira de seu envolvimento com as finanças dos funcionários. Diante do elevado número de empregados com problemas orçamentários - que, segundo especialistas, chega a 70% do total - e preocupadas em garantir que dívidas e problemas econômicos não interfiram na produtividade, essas companhias adotaram programas para ensinar como fazer o salário chegar até a entrega do contracheque do mês seguinte.
Dentro dessa estratégia, a tradicional linha de crédito oferecida com recursos próprios ou em parceria com um banco se tornou insuficiente. As empresas começam a investir em aulas e palestras sobre finanças pessoais e, em alguns casos, ajudam funcionários a negociar com credores em busca de abatimento nas dívidas.
A medida foi adotada pelo laboratório farmacêutico GlaxoSmithKline, que inseriu um curso de planejamento financeiro dentro de um programa de qualidade de vida. Primeiro, foi realizada uma palestra com o economista Luiz Carlos Ewald, que contou com a participação de 400 dos 700 funcionários, na unidade de Jacarepaguá. A etapa seguinte compreendeu a realização de um workshop no qual 50 trabalhadores aprofundaram os conhecimentos sobre finanças pessoais.
- Percebemos que o número de pessoas em busca de empréstimos era crescente e decidimos, então, criar um programa que ensinasse o funcionário a lidar com suas contas - explica a gerente de recursos humanos da GSK, Tatiana Melamed. - O funcionário preocupado com dívidas não dorme direito, não produz bem. Depois do programa, percebemos uma queda significativa na procura por empréstimos.
Funcionário do laboratório, o publicitário Daniel Ayres, de 22 anos, não chegou a recorrer a empréstimos. Mas, morando com os pais e sem compromissos pesados, incomodava-se com as dívidas no cartão de crédito e no cheque especial.
- Minhas únicas despesas eram educação e lazer. Mas eu sempre fui muito impulsivo, fazia os cursos que queria, as viagens que surgiam, comprava o que tinha vontade. Aprendi a anotar todas as despesas e gastar o que eu tinha. Hoje, aplico 30% do meu salário em um fundo de investimentos, sem me privar de nada. Com a poupança, quero estudar francês. Na França - comemora.