Título: O passado não perdoa
Autor: MAURO SANTAYANA
Fonte: Jornal do Brasil, 18/07/2005, País, p. A2

Restos de documentos carbonizados, recolhidos em Belo Horizonte, mostram que as agências de propaganda sob investigação parlamentar já tinham o que esconder em 1998, ou mesmo antes disso. Temos que caminhar para trás, examinar os rastros no tempo, identificar todos os responsáveis pelo apodrecimento das instituições nacionais. Nesse processo de devassa nenhuma pessoa, partido político ou instituição sob suspeita pode contar com imunidades. Todos os contratos com o Estado e suas empresas devem ser examinados. As ligações de todos os partidos com os financiadores de suas campanhas necessitam vir à luz. É preciso saber quem vem realmente governando o Brasil: os cidadãos, mediante seus representantes, ou os banqueiros e grandes empresários, por intermédio de seus financiados. Não podemos perder a oportunidade de ir até o fundo. O povo brasileiro tem o direito de limpar os poderes do Estado e voltar a acreditar em suas instituições. Temos assistido, nestes últimos e tristes anos, ao início de comissões que prometem rigor, e vão, à medida que surgem indícios envolvendo personalidades realmente poderosas, perdendo o fôlego, até se frustrarem, como a CPI do Banestado e outras, ensaiadas no passado. A inquisição de Gustavo Franco deixou explícita a lavagem de dinheiro, a violação das leis e do interesse nacional, com a livre circulação, sem qualquer controle, de caminhões carregados de numerário entre o Brasil e o Paraguai. A discrepância, quanto ao relatório final, entre os senadores Antero Paes de Barros e José Mentor, interrompeu o processo investigatório.

Não podemos perder a oportunidade de ir até o fundo na limpeza do Estado. Marcos Valério, acossado pelo medo de ir sozinho para a cadeia, começa a dizer algumas coisas que comprometem o governo anterior. O empresário mineiro é apenas uma quina da ponta do iceberg. É hora de examinar outros indícios de corrupção que ficaram jogados pela estrada. É necessário saber como se deu a privatização da Vale do Rio Doce e da CSN, empresas que custaram o sangue dos pracinhas mortos na Itália, uma vez que a primeira foi financiada pelo Eximbank e a segunda, oferecida ao Brasil no conjunto dos Acordos de Washington em que se definiram os termos de nosso esforço de guerra. A nação tem o direito de saber exatamente como e por que foi armada, entre a Presidência da República e o BNDES, a privatização das empresas de telecomunicação.

O governo de Eduardo Azeredo em Minas está sendo citado na CPI. Coube-lhe conduzir a mais dócil das administrações estaduais ao Planalto, no primeiro mandato de Fernando Henrique. Foram desastradas as negociações para que se federalizasse a dívida do Estado, e se privatizassem os bancos estaduais mineiros. Essas negociações se fizeram com a participação de homens da intimidade de Marcos Valério, como os ex-membros do governo de Eduardo Azeredo, o vice-governador e secretário de Coordenação e Planejamento, o atual ministro Walfrido Mares Guia, e o secretário da Fazenda, João Heraldo de Lima, hoje diretor do Banco Rural.

As leis perderam a sua vigência, porque quase todas estão sendo violadas pelas pessoas que deveriam zelar pelo seu cumprimento - e isso há muito tempo. Voltamos a lembrar que cresce entre as pessoas sensatas a convicção de que é hora de se convocar o povo, senhor da soberania nacional, a fim de reconstruir a República, mediante Assembléia Nacional Constituinte de cidadãos, desvinculada dos partidos políticos e das corporações, e escolhida com base territorial, a partir das circunscrições eleitorais.

O fato é que o povo não confia mais nas instituições, que se mostram vulneráveis aos corruptores e aos interesses estrangeiros, que sempre impediram que Brasil realizasse um projeto soberano de desenvolvimento.

Essa assembléia pode reunir-se de duas formas: ordeiramente, se o Parlamento tiver juízo e convocá-la - ou nas ruas.