Título: O silêncio pelo bem da causa
Autor: Jarbas Passarinho
Fonte: Jornal do Brasil, 19/07/2005, Outras Opiniões, p. A11

Na avalanche de escândalos que inundam o noticiário nestes tempos sombrios, vê-se de tudo. Todo tipo de corrupção, toda forma de adquirir riqueza por meios fraudulentos, toda desfaçatez para desqualificar quem acusa o furto e o aluguel de votos para garantir ao governo sucessivas vitórias em projetos de lei e até em emendas constitucionais. Relevante é de notar que petistas, a serviço do partido e conseqüentemente do governo, assumem a autoria dos ilícitos que, sem dúvida, só praticariam se cumprindo ordens superiores. Isso desde Waldomiro Diniz a Delúbio Soares, impressionante exemplo de auto-sacrifício ''pelo bem da causa''. Até o pobre diabo, morador de casebre sem eira nem beira, que escondeu dólares na cueca. Demitido da assessoria do PT, silencia. Atribuem-lhe, ainda, a posse pessoal do dinheiro, não senão depois de pedir, sem êxito, a um advogado amigo que assumisse como sua a dinheirama, por ser ''uma razão de Estado''. Todos não comprometem quem os usou.

O deputado Roberto Jefferson, provavelmente para vingar-se de haver sido abandonado, delatou tudo o que sabia. Culto não só em música, é possível ter lido no Hamlet a lição de Polônio, ao ensinar ardis ao criado que vai levar dinheiro ao filho, mas quer saber como se comporta em Paris. Ensina-lhe ''como a mentira pode colher a verdade''. O deputado não mentiu, mas a sociedade colheu as provas de que ele era falto. Auxiliou-o decisivamente uma secretária que sabia muito e - sabe Deus porquê - decidiu socorrê-lo, revelando os embustes do patrão Marcos Valério, operador do mensalão. A mídia investigativa transformou o que na delação era verossímil, em verdade, que só os cegos que não querem ver não vêem. Embora ele se tenha incompatibilizado com boa parte de seus pares que o julgarão por falta de decoro parlamentar, o deputado terá a seu favor um forte álibi: não mentiu. Desde logo disse que não tinha provas. Essas vieram naturalmente. Ainda que de moto próprio o deputado Jefferson tenha confessado a prática de um deslize (declaração irreal aos Tribunais Eleitorais dos gastos de campanha), o mesmo terão praticado os que o julgarão. Ao depor, desafiou-os a negar. Nenhum o contestou.

O desenrolar das denúncias de Jefferson revela como é multiforme a corrupção. Há quem pense tratar-se do caráter nacional, mas resisto, mesmo quando parlamentares vendem-se ao Executivo, servidores públicos assaltam o erário e até juízes vendem habeas corpus a traficantes. No mercado, um publicitário enriquece favorecido por contratos com estatais, devido a licitações consentidamente fraudadas. Na política, um partido que simulava ser o porta-bandeira da ética, mal toma o poder revela-se venal, associado ao publicitário enricado fraudulentamente nos arraiais governamentais, que lhe concediam primazia nas contas de propaganda do governo, em licitações fraudadas. Console-nos não ser o Brasil o único nesse jogo sujo. Da França, o honrado e admirado escritor Georges Bernanos - que fugindo do governo Pétain escolheu Minas Gerais para o exílio - disse: ''A enorme proporção de culpados de corrupção acaba sempre por destruir, naqueles que são honestos, o sentido da culpa''. Nem os americanos tendentes ao puritanismo deixam de sofrer a degradação da moral individual, cada um a definir para seu uso o bem e o mal, o permitido e o interditado em choque com os princípios filosóficos ou religiosos. A corrupção banaliza-se lá fora, mas não a protege a impunidade. Há poucos dias, uma juíza americana condenou o magnata da empresa WorldCom, a maior na história dos Estados Unidos. A magistrada disse que a sentença deveria ser de 30 anos de reclusão, mas como não queria que ele morresse na prisão aplicou-lhe a pena de 25 anos. Ao que parece, não ironizava o réu que tem 62 anos de idade.

A república sindicalista - que foi atribuída à intenção de Jango, em 64, e causou enormes apreensões aos conservadores - está em plena execução no governo petista. Sindicalistas ocupam desde os ministérios à direção de empresas estatais, quase todos como justo prêmio por haverem perdido eleições em seus estados. Aos menos importantes restam 20 mil cargos de nomeação em confiança. O aparelhamento do Estado ficou patente. Versados em Gramsci e na sua teoria da hegemonia, substituta do leninismo, muitos vêem nisso a marcha para a marxização do Brasil, sem necessidade de luta armada. Talvez não seja mais do que Genoino, em artigo já como ex-presidente do PT, diz ter sido erro ''não ter adequado o partido aos novos rumos''. Alguns sindicalistas, porém, projetam-se mais que outros. Um exemplo é o senhor Pizzolato. Preferiu uma rendosa sinecura abrigada dos olhares da oposição. O Correio Braziliense, porém, lhe descobriu, longe dos holofotes das CPIs, a carreira meteórica. Diretor de Marketing do Banco do Brasil, soma ao seu salário jetons de conselheiro da Previ e de empresas de que o fundo de pensão mais rico do país é acionista. Como se fosse pouco para retribuir-lhe o talento de executivo excepcional, recebe participação dos lucros do banco (R$ 150 mil) e da Embraer (R$ 40 mil) tudo em 2004, garantindo-lhe honrados R$ 43 mil por mês, o que lhe permitiu vários imóveis no Brasil, no valor de mais de R$ 2 bilhões. Esse afortunado Pizzolato soube ''ajustar-se aos novos rumos do PT''. O ''Brasil de todos'', slogan petista, não é de todos, mas de alguns. Desde que petistas.