Título: Dívida de perfil renovado
Autor: Kelly Oliveira
Fonte: Jornal do Brasil, 19/07/2005, Economia & Negócios, p. A19

O Tesouro Nacional confirmou ontem o início do processo de retirada do mercado dos títulos da dívida externa brasileira chamados de C-Bond - nascidos em 1994, após a moratória do Brasil no fim dos anos 80. Na visão do governo, a troca da chamada dívida velha por um novo título deve melhorar o perfil de pagamento futuro das obrigações do país lá fora. O estoque de C-Bonds em poder do mercado é de US$ 5,6 bilhões e serão trocados a partir de operação liderada pelos bancos JP Morgan e Crédit Suisse. Segundo o Tesouro, na troca serão emitidos títulos com cronograma de pagamento semelhante ao dos C-Bonds. O calendário prevê amortizações em abril e em outubro anualmente a partir de 2004 até 2014. Na troca, o governo pretende, entretanto, alongar o vencimento dos títulos. A data limite será definida a partir de leilão na próxima quinta-feira.

Os juros pagos pelo C-Bond atualmente são de 8%. Os desembolsos do governo para o pagamento de juros e de parte da dívida atingem US$ 600 milhões por ano. O Tesouro informou ainda que o novo título, diferentemente do C-Bond, não terá cláusula de recompra antecipada, o que significa que o governo só irá resgatá-lo na data de vencimento.

Ontem, os C-Bonds operaram em alta de 0,25% na hora do fechamento do mercado brasileiro. Foi exceção. O Global 40 recuou 0,47% e o risco país - que mede a confiança dos estrangeiros na economia brasileira -, em queda, marcou 402 pontos.

No mercado brasileiro, o dia foi de calmaria, na véspera da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). O dólar chegou a bater R$ 2,326, mas fechou no mesmo patamar de sexta-feira, aos R$ 2,338.

Segundo analistas, os fundamentos econômicos continuam se sobrepondo à crise política.

- O mercado vem se comportando bem, apesar do cenário político nebuloso. Continuam entrando recursos por meio de captações, o que mostra que o mercado externo ainda está aberto para o Brasil - afirmou Francisco Carvalho, da corretora Liquidez.

Entre os fatos positivos da economia brasileira hoje estão a divulgação dos resultados da balança comercial e a queda nas previsões de inflação para 2005.

Os números do comércio exterior continuam consistentes e o superávit da balança chega a US$ 22,369 bilhões no ano, 34,1% acima dos US$ 16,681 bilhões registrados no mesmo período de 2004. O superávit é a diferença positiva entre as exportações, que alcançaram US$ 59,433 bilhões, e as importações (US$ 37,064 bilhões). Na terceira semana de julho, a balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 985 milhões, com exportações de US$ 2,426 bilhões e importações de US$ 1,44 bilhão.

Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o clima também foi positivo. O mercado fechou com alta moderada de 0,39%.

A vizinha Argentina também viveu um dia positivo ontem. O país conseguiu lançar no mercado externo US$ 442 milhões em títulos com vencimento em 2012. É a primeira oferta feita pelo governo desde a moratória, em 2001. A procura pelos títulos argentinos superou em três vezes a oferta, com juros de 7,83% anuais.

A elevada procura se deve ao sucesso da reestruturação da dívida argentina, encerrada em fevereiro deste ano, quando o país renegociou passivo de US$ 104 bilhões. Além disso, nos últimos dois anos, a economia argentina cresceu mais de 8%.

Após a reestruturação da dívida, em fevereiro, o país conseguiu elevar sua classificação de risco para B-, segundo a Standard & Poor's, e B3, na Moody's, apenas seis níveis abaixo do investment grade (baixo risco para investidores).

Com agências