Título: Silvio Pereira na terra do nunca
Autor: Fernando Exman
Fonte: Jornal do Brasil, 20/07/2005, País, p. A3
O secretário licenciado do PT, Silvio Pereira, chegou ontem à CPI dos Correios protegido por um hábeas-corpus, permaneceu na defensiva durante todo o depoimento, e negou as acusações existentes contra ele. Pereira admitiu ter coordenado as indicações do PT para cargos no governo federal, mas negou ser o responsável por negociar nomeações com os partidos aliados ou ter aproveitado a posição que ocupava para obter recursos financeiros para o PT ou outros partidos da base aliada. Pereira disse que coordenava a utilização de um banco de dados com 5 mil nomes e currículos de pessoas ligadas ao PT e que encaminhava demandas por cargos desses grupos ao governo. No entanto, negou que tinha poder para decidir quem ficaria com os cargos. Pereira mostrou conhecer, porém, quais eram os cargos mais cobiçados. Segundo ele, vagas de confiança no Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobras e Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) eram as mais disputadas e sempre que algum partido da base aliada queria ocupar alguma Delegacia Regional do Trabalho (DRT) ou um órgão ligado à reforma agrária uma ''confusão'' com os integrantes do PT era criada.
Pereira negou que tinha uma sala no Palácio do Planalto onde negociava as nomeações para cargos no governo federal, mas disse que se encontrava com líderes partidários e integrantes do governo em salas de reuniões em dependências de edifícios governamentais.
A acusação de que teria usado influência também foi rebatida pelo secretário-geral licenciado do PT. Pereira disse que nunca utilizou sua atuação junto ao governo federal para beneficiar empresas em contratos com estatais. Em relação ao empresário Marcos Valério, acusado de ser o operador do esquema do mensalão, Pereira disse que o conheceu em meados de 2003, nas dependências do PT, em São Paulo, como um publicitário que tinha o interesse de fazer as campanhas eleitorais do partido.
Apesar de o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares ter afirmado que Pereira tinha conhecimento dos empréstimos contraídos pelo PT junto a Valério, ele negou que sabia detalhes de como o partido estava se endividando. Disse ainda que a cúpula do partido decidiu que iria buscar recursos no sistema bancário, mas que a operação das captações foi responsabilidade de Delúbio. Pereira comentou ainda que a grande maioria das campanhas municipais do partido padeceu de falta de dinheiro em 2004, excetuando algumas campanhas para grandes capitais do país.
Oposição e base aliada acharam que um dos principais pontos do depoimento foi a recusa de Pereira de detalhar seu patrimônio e suas fontes de renda. Ele autorizou a quebra de seu sigilo fiscal, mas não quis explicar como, com o rendimento mensal declarado de R$ 9 mil, conseguiu adquirir uma casa de praia e um carro importado da marca Land Rover.
- Ele não ter dado mais esclarecimentos sobre seu patrimônio pessoal é muito ruim. Traz uma série de especulações - afirmou o deputado federal José Eduardo Cardozo (PT-SP).