Título: Diplomacia do constrangimento
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 26/07/2005, Internacional, p. A7

Foi o primeiro encontro dos ministros das Relações Exteriores da Grã-Bretanha e do Brasil desde o ''erro trágico'' que, na sexta-feira, matou o eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, de 27 anos. Celso Amorim e um visivelmente constrangido Jack Straw falaram juntos ontem à imprensa, num esforço para manter o caráter diplomático dias depois de agentes da Scotland Yard darem oito - não os cinco inicialmente divulgados - tiros à queima-roupa no eletricista, que não tem qualquer ligação com terroristas.

A única decisão objetiva anunciada após a reunião foi a garantia de que a família de Jean Charles, de Gonzaga, Minas Gerais será indenizada. Foi um pedido de Celso Amorim:

- Não diminui a consternação e a perplexidade causadas pela morte desse inocente, mas é uma maneira concreta de expressar o pedido de desculpas já feito de forma verbal.

Straw concordou e garantiu que ''o pedido (de indenização) será encaminhado de forma receptiva e rápida'', além de prometer acelerar a liberação do corpo de Jean Charles.

Quando um jornalista perguntou se estava satisfeito com a reação das autoridades britâncias, Amorim disse ser cedo demais para hora de responder, fazendo lista de exigências.

- Só poderei responder plenamente a essa pergunta quando a investigação tiver sido concluída e os eventuais culpados tiverem sido punidos; quando soubermos se foi um acidente ou um erro ou outra coisa; quando as questões relativas à família tiverem sido esclarecidas.

O encontro de Straw e Amorim aconteceu no dia da divulgação parcial da perícia feita no corpo de Jean Charles: dos oito tiros, sete foram na cabeça e um, no ombro, disparados contra um homem já imobilizado no chão. E no dia em que circularam pelo mundo as declarações do chefe da Scotland Yard, Ian Blair, e do ministro da Justiça britânico, Charles Clarke, de apoio à polícia londrina - Blair disse que os policiais agiram certo ao atirar na cabeça de um suspeito e Clarke os parabenizou.

Ao lembrar que a luta contra o terrorismo não pode perder de vista a preservação dos direitos humanos, Amorim obrigou o colega britânico a ouvir que erros como o que matou Jean Charles só ajudam o inimigo.

- Claro que se acontecerem coisas como parece que aconteceu nesse incidente, isso pode beneficiar o terrorismo.

Straw e Blair garantiram que Jean Charles estava em situação legal, desmentindo versão de que seu visto expirara.

No fim do encontro, Amorim anunciou à imprensa que faria um pedido a Straw, não discutido na reunião, deixando o chanceler britânico sem a chance de dizer não. O brasileiro quer que tanto a família de Jean Charles quanto o governo brasileiro tenham a liberdade de esclarecer qualquer dúvida sobre o processo de investigação do crime. Foi atendido.

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, falou ontem, pela primeira vez, no incidente, que lamentou. Mas acrescentou:

- Temos que entender que a polícia vive circunstâncias muito difíceis. É importante que tenham nosso apoio.