Título: Um governo cada dia menos petista
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 24/07/2005, País, p. A4
A reforma ministerial concluída na última semana deu início a um processo gradual de perda de espaço do PT, uma das estratégias do Planalto para afastar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do epicentro da crise. Desde o início do mandato de Lula, a estrela vermelha do partido nunca esteve tão desbotada na Esplanada como agora. Na dieta da crise, o PT - sempre cioso de seu espaço no governo - emagreceu seis ministérios. Antes da reforma, possuía 21 das 35 pastas. Passou a controlar 15.
Das perdas, duas guardam significado emblemático por envolver as meninas dos olhos do PT: os valiosos ministérios das Cidades e Saúde, chamados de municipalistas pela capacidade de fazer política e abrigar parte essencial do projeto eleitoral petista para as eleições do próximo ano.
O ministério da Saúde, do resistente Humberto Costa, agora está sob a batuta do deputado Saraiva Felipe (MG) do PMDB. A pasta das Cidades desempregou Olívio Dutra, um quadro do PT gaúcho, e foi parar nas mãos do PP, num acerto entre Lula, o deputado Delfim Netto e o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. Lula e Delfim bancaram o até então secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Márcio Fortes. Severino vendeu para a platéia a indicação como sua, e levou, de lambuja, cargos estratégicos para preencher, ascendência direta sobre obras habitacionais e um orçamento de R$ 16 bilhões para manejar.
O ministério das Cidades trará dividendos eleitorais para o PP e governo, apostou Severino na sexta durante a cerimônia de transmissão do cargo a Fortes. Mas a sensação no PT foi outra.
- O governo está ficando cada vez mais prisioneiro das forças de centro, conservadoras e de direita - devolveu Olívio, no mesmo dia, numa entrevista a uma rádio do Rio Grande do Sul.
No núcleo duro do Planalto, o PT também emagreceu. O ministro José Dirceu desabou à planície. A sucessora e gerentona Dilma Roussef é do PT, mas se caracteriza mais pelo perfil técnico do que pelo político. Luiz Gushiken perdeu o status de ministro. Será apenas chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE), na prática um assessor especial do presidente. Só restaram o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e Jaques Wagner, ministro da Coordenação Política. Um homem de partido mas reverenciado mais pelo bom trânsito com os parlamentares de diversas matizes partidárias do que pela proximidade com a antiga cúpula petista.
Aliás, dos poucos companheiros que hoje privam da intimidade do presidente Lula, apenas Jaques Wagner, Antonio Palocci e Luiz Dulci, da Secretaria Geral, são petistas. O ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, por exemplo, hoje conselheiro para todas as horas, não se entrelaça ao partido do presidente nem à crise.