Título: Tarde de desabafos e aplausos
Autor: Israel Tabak e Ricardo Rego Monteiro
Fonte: Jornal do Brasil, 23/07/2005, País, p. A3

Acuado pelas investigações que, dia a dia, envolvem mais correligionários do PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontrou à tarde, na Rrefinaria Duque de Caxias (Reduc), um cenário preparado para um amplo desabafo contra as elites, parlamentares, companheiros de partido, o mercado financeiro e até a imprensa. Muito aplaudido por uma platéia de cerca de 500 funcionários da refinaria, sindicalistas, ministros e empresários, o presidente endureceu o discurso ao parafrasear o senador José Sarney quando era presidente: - O presidente é a única instituição que não tem imunidade. Qualquer um de vocês pode fazer qualquer processo contra mim. Contra um presidente da República pode. Contra um deputado não pode. Contra um senador não pode - disse Lula, que também aproveitou para elogiar o ministro da Fazenda, Antonio Palocci - o único dos ministros mais próximos que não estava presente - e para alfinetar os exportadores que reclamam do real valorizado:

- O Palocci foi genial, nesses dias, porque em um debate com empresários que criticavam o câmbio, perguntou a eles: ''Mas vocês não queriam o câmbio flutuante?'' O câmbio flutante flutua, para cima ou para baixo. Mas tem gente que só quer que flutue de acordo com seus interesses - criticou.

Lula lembrou que, mesmo com o câmbio valorizado, o Brasil tem conseguido bater recordes de exportação ''todo santo mês''. Ao lembrar que, em junho, o país alcançou um superávit da balança comercial, nos últimos 12 meses, de US$ 109 bilhões, ele anunciou que o volume chegará a US$ 110 bilhões em julho.

- E os pessimistas todo dia escrevem nos jornais. E tem hora que eu leio alguma matéria e penso: eu vou embora porque o Brasil acabou. Tem determinadas pessoas que conseguem visualizar a desgraça quando não há desgraça - atacou o presidente, ao lembrar, sem querer, o também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que igualmente costumava criticar ''os pessimistas de plantão''.

Na platéia reunida na refinaria, além de petroleiros, ministros e empresários do setor, também estava presente o ex-ministro do Planejamento do governo Geisel, João Paulo dos Reis Velloso, a quem Lula fez questão de citar de passagem durante o discurso. Embora tenha recebido o apoio de sindicalistas como o presidente do Sindicato dos Petroleiros, Simão Zanardi, que chegou a pedir a suspensão da abertura do setor de petróleo, Lula fez questão de reafirmar o compromisso com algumas premissas econômicas até hoje contestadas pela esquerda e pelo PT.

O presidente não só reforçou a meta de redução dos gastos públicos - ao dizer que o governo ''nunca vacilou em adotar políticas fiscais sérias'' -, como também foi claro quanto aos rumos do setor de petróleo:

- A gente não tem que ter medo de que outro país venha furar poço em nosso país para achar petróleo, porque a gente também quer furar buraco no país dos outros. (R.R.M)