Título: Lula ataca a elite e defende os pobres
Autor: Israel Tabak e Ricardo Rego Monteiro
Fonte: Jornal do Brasil, 23/07/2005, País, p. A3

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva forneceu ontem uma pista de como pretende enfrentar a crise e sustentar o projeto da reeleição: vai se ancorar nos programas sociais do governo, como o Bolsa-Família e a Farmácia Popular e evocar a imagem do estadista preocupado com os problemas da população mais humilde, que não pode ser ''vítima da pequenez política, que nem sempre conduz o povo a um futuro melhor''. Ao inaugurar ontem no Rio o Complexo Tecnológico de Medicamentos da Fiocruz, o presidente foi bem menos contundente que o novo ministro da Saúde, Saraiva Felipe, ao descrever o momento político. O que, para Saraiva, é uma ''turbulência'', na visão de Lula não passa de um ''debate''.

Mais tarde, na Refinaria Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a tática ficou mais evidente. O presidente atribuiu à ''elite brasileira'', o propósito de fazê-lo ''baixar a cabeça'' e disse que o país ''precisa de seriedade''.

- Nesse país não tem mulher nem homem que tenha coragem de me dar lição de ética, de moral e de honestidade.

E arrematou, sob aplausos dos petroleiros:

- Conquistei o direito de andar com a cabeça erguida nesse país com muito sacrifício. E não vai ser a elite brasileira que vai fazer eu baixar a cabeça

Pela manhã, Lula já havia deixado clara a estratégia. Afirmou que para a maioria da população, mais importante que o ''debate político'' são as melhorias concretas que a administração pode proporcionar.

- O que o povo quer mesmo é resultado. O que ele quer é saber se no frigir dos ovos a sua vida vai estar melhor do que quando nós entramos no governo.

Em outras palavras: enquanto o ''dabate'' político perdura, Lula vai procurar contra-atracar, com exemplos concretos de como estariam indo de vento em popa alguns dos principais programas do governo, sobretudo os da área social.

Ontem, no palanque de Farmanguinhos, o presidente deu alguns números: até o fim do ano 8 milhões e 700 mil famílias terão sido contempladas com o Bolsa Escola; o governo está conseguindo criar 104 mil empregos novos por mês; com a inaurugração do Complexo Tecnológico, em 2007 estarão sendo produzidas 10 bilhões de unidades farmacêuticas, que vão assegurar remédios de graça para a população mais pobre.

O presidente associou esses números a uma ''pressão política'' que estaria ocorrendo contra a atual administração:

- Se o país está andando assim, é justo que haja pressão. Não é fácil fazer as coisas com seriedade neste país sem pegar as pessoas de sobressalto - analisou.

Lula não perdeu a oportunidade fazer comparações entre a sua administração e a de Fernando Henrique Cardoso,

Ao elogiar o petista Olívio Dutra, que acaba de sair do Ministério das Cidades, disse que até agora se gastou em saneamento básico 14 vezes mais do que no último mandato de Fernando Henrique. E a cada mês o seu governo está proporcionando 12 vezes mais empregos do que na administração anterior. Humberto Costa, outro petista que abandona o ministério, também ganhou elogio

- Ele deixou a Saúde mais arrumada do que encontrou.

Indo de encontro ao movimento inicial do Planalto, assim que explodiu a crise do mensalão, Lula disse ontem que sempre foi a favor de CPIs, seja no poder ou na oposição. Acha que os fatos devem ser apurados e os culpados punidos. Mas citou um ''paradoxo'': tudo isso acontece no momento em que o país, ''pela primeira vez'', tem a chance de construir um ciclo de desenvolvimento sustentável, ''com crescimento duradouro''.

As manifestações prometidas na véspera por partidos de extrema esquerda e entidades sindicais não ocorreram. Os eventuais manifestantes, no entanto, não teriam a chance de se aproximar do presidente, que chegou e saiu de helicóptero, usando uma área do complexo. Na véspera, os jornalistas também foram avisados de que hão haveria entrevista.

Mesmo os fotógrafos, que costumam ter mais liberdade de movimentos, só puderam trabalhar atrás de um vidro, no interior deo complexo. Viram o presidente sorridente, conversando a todo momento com os trabalhadores da fábrica. Depois, na solenidade, enquanto os outros oradores ocupavam o palanque, Lula aparentava cansaço.