Título: Mercado chega à Quarta de Cinzas
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Fonte: Jornal do Brasil, 23/07/2005, Economia & Negócios, p. A19
Se até agora o clima era de euforia na economia, ontem surgiram os primeiros sinais de que as turbulências políticas podem fazer este carnaval se aproximar da Quarta-feira de Cinzas. O periódico inglês Financial Times e o banco americano Merrill Lynch lançaram dúvidas sobre a blindagem da economia brasileira frente à avalanche de denúncias contra o PT e integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Matéria publicada ontem no FT alerta para a paralisação das reformas do governo, das quais depende o potencial crescimento em longo prazo do Brasil. Segundo o jornal, a agenda foi ''congelada pelo pior escândalo de corrupção do Brasil desde o impeachment e a renúncia do ex-presidente Fernando Collor, 13 anos atrás''.
O diário destaca que as atuais condições econômicas mundiais são as mais favoráveis ao Brasil nos últimos 50 anos. ''Uma combinação de demanda chinesa por matérias-primas e o apetite dos banqueiros de investimentos por ativos de alto rendimento deixou o país inundado de dinheiro estrangeiro''.
E segue: ''Até o momento, a economia brasileira parece estar imune à crise. No entanto, por várias razões, tal situação pode ser impossível de sustentar. Para começar, o escândalo provavelmente adiará quaisquer novas reformas semelhantes às que melhoraram a reputação de Lula junto a Wall Street. A prática diária de governo está paralisada pelo escândalo''.
O jornal coloca em xeque ainda a perspectiva de crescimento do país em 2005. A matéria cita a revisão das expectivas para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano para 2,8%. Segundo analistas, seria necessário um crescimento de 3,5% em 2005 para manter em curso a maré de confiança que ajuda o país. ''Executivos brasileiros já começaram a segurar os planos de investimentos de olho nas eleições presidenciais do ano que vem''.
Para piorar o humor dos investidores, o banco de investimentos americano Merrill Lynch reduziu para ''média do mercado'' a participação de títulos brasileiros em seu portfólio. Antes, a recomendação era de ''acima da média do mercado''. Isso significa que a instituição diminuiu o espaço destinado a papéis brasileiros em sua carteira.
Segundo o Merrill Lynch, ''o risco político no Brasil pode aumentar, com as investigações atingindo sua fase crítica''.
Com isso, o risco Brasil subiu 3,23%, aos 416 pontos. O Global 40, um dos títulos mais importantes do país lá fora, caiu 0,17%. Mas analistas lembram que o indicador de risco sofreu influência também da troca dos C-Bonds.
Na terça-feira, Raphael Kassin, do ABN Amro Bank NV, disse ter vendido todos os títulos da dívida brasileira que estavam em seu poder por temer que a crise política venha a afetar o crescimento econômico do país.
O mercado interno acabou afetado pelas notícias e o dólar subiu 1,73% e fechou a R$ 2,398, acumulando valorização de 2,56% na semana. Na Bovespa, a queda foi de 1,75%, reduzindo para 0,67% a alta acumulada na semana.