Título: Prefeito culpa Ocidente por atentado
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Fonte: Jornal do Brasil, 21/07/2005, Internacional, p. A9

O prefeito de Londres, Ken Livingstone, responsabilizou ontem a política externa ocidental no Oriente Médio pelo radicalismo islâmico que tem matado vítimas inocentes em atentados pelo mundo - o último deles, em Londres, dia 7. Com o comentário, Livingstone encerrou a lua-de-mel com os adversários políticos, que andaram aplaudindo sua postura à frente do governo municipal desde a tragédia que matou 56 pessoas. E voltou a ser o personagem que os opositores chamam de ''Ken, o Vermelho'', colecionando críticas e indignação no cenário político.

- Tivemos 80 anos de intervenção ocidental em terras predominantemente árabes por causa de nossa necessidade por petróleo. Respaldamos governos repulsivos, derrubamos os que não considerávamos simpáticos - recordou Livingstone, para quem o resultado dessa intervenção é um ''terrível legado''.

- Se, ao fim da Primeira Guerra Mundial tivéssemos cumprido as promessas feitas aos árabes, que consistiam em deixá-los livres e ter seus próprios governos; se não tivéssemos nos metido em seus assuntos; se tivéssemos nos limitado a comprar seu petróleo em vez de achar que tínhamos de ter controle sobre a produção... Tenho a sensação de que nada disso estaria acontecendo - arrematou o prefeito.

''Ken, o Vermelho'' também tocou num ponto que poucos têm coragem de lembrar publicamente.

- O problema que temos neste momento é que, na década de 80, os americanos recrutaram e treinaram Osama bin Laden, lhe ensinaram como matar e fazer bombas, e o enviaram para assassinar os russos e expulsá-los do Afeganistão. Não pensaram que, uma vez tendo feito isso, ele poderia se voltar contra os seus criadores.

Livingstone bateu de frente com a opinião do primeiro-ministro, Tony Blair, insistente em dizer que as decisões que o Ocidente toma, incluindo a guerra do Iraque, nada têm a ver com os ataques terroristas. Mas ficou em sintonia com a opinião pública britânica. Dois terços da população consideram que há conexão direta e que o apoio de Blair à guerra de Bush deixou o país mais vulnerável a atentados.

O premier só se manifestou com relação aos comentários de Livingstone por sua assessoria.

- Reconhecemos que Ken Livingstone foi um líder do povo de Londres no evento da tragédia que abateu a cidade. Ao mesmo tempo, expressa visões de mundo com as quais discordamos veementemente - disse um assessor do primeiro-ministro.

- Embora seja terrível que esses ataques tenham acontecido, nos últimos anos nossos serviços de segurança e nossa polícia têm feito um esforço enorme para proteger nosso país - afirmou Blair ontem, antes dos comentários do prefeito.

Livingstone fez questão de dizer que condena qualquer ação de terror resultante na morte de inocentes. Mas aproveitou a polêmica que iniciou ao comentar a relação Ocidente-Oriente Médio, para defender os palestinos e provocar a comunidade judaica no país:

- Se você está sob ocupação estrangeira e tem negados o direito ao voto, o direito de gerir seus próprios negócios e o direito de trabalhar, durante três gerações, acho que, se fosse aqui na Inglaterra, já teríamos nós mesmos produzidos muitos homens-bomba.

A resposta a essa comparação teve reação imediata.

''É ultrajante que o mesmo prefeito que corretamente condenou os atentados suicidas em Londres como sendo resultado de uma 'fé pervertida' defenda aqueles que, sob a mesma bandeira extremista, matam israelenses'', disse, em nota, o embaixador de Israel em Londres, Zvi Heifetz.