Título: Polícia vai sufocar tráfico na Rocinha
Autor: Ana Paula Verly
Fonte: Jornal do Brasil, 21/07/2005, Rio, p. A14

A Polícia Civil interveio na Rocinha ontem, com a nomeação do delegado Ricardo Martins para investigar e comandar uma equipe contra as quadrilhas de traficantes. O chefe de polícia Álvaro Lins em pessoa determinou a transferência temporária do delegado, que é diretor do Departamento de Polícia da Capital (DPC), para a 15ªDP (Gávea). O objetivo é evitar a chegada de novos bondes do tráfico à maior favela da América Latina, como aconteceu no fim de semana passado, quando o Túnel Zuzu Angel chegou a ser fechado por causa de tiroteios entre traficantes e policiais. Na operação de ontem, uma alarmante descoberta: o crack entrou definitivamente na agenda do tráfico carioca, pois nada menos que dez quilos da droga foram apreendidos. Além do crack, um fuzil .30 ¿ arma antiaérea de uso exclusivo das Forças Armadas ¿ uma granada e um artefato auto-explosivo semelhante a uma mina terrestre foram apreendidos, além de 500 bolas de haxixe, 10 quilos de maconha, 40 de cocaína e cerca de 1,5 mil sacolés da mesma droga . Um Toyota Corola preto de placa clonada, usado por Bem-te-vi para circular na favela, e uma Scooter, ambos roubados, também foram encontrados. ¿ O tráfico sofreu um prejuízo de aproximadamente R$ 1 milhão com essas perdas. Essa foi uma grande apreensão de crack realizada no estado. O fuzil também foi uma grande descoberta ¿ declarou Álvaro Lins.

A arma estava na laje de um barraco abandonado na mata, na localidade conhecida como Laborioux. Com ela os traficantes teriam atingido, em junho, um helicóptero da Polícia Civil.

¿ O fuzil .30 dispara rajadas como as de metralhadora. Ele é usado por bandidos para derrubar helicópteros e atacar blindados ¿ explicou o delegado Ronaldo de Oliveira, do Serviço de Repressão a Entorpecentes da Baixada Fluminense (SRE-BF).

Há dois anos chefiando as 37 delegacias da capital, Ricardo Martins, 60, ficará responsável pelas operações na Rocinha pelo menos até a próxima semana. Com 35 anos de polícia ¿ 15 como delegado ¿ ele passou a maior parte da carreira atuando nas unidades da Baixada Fluminense, onde combatia grupos de extermínio, e já dirigiu também a Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas. Apesar do atentado que sofreu em 2001, que o deixou oito dias internado no CTI e o afastou por um ano da função, ele diz que, se necessário, estará na linha de frente das ações.

¿ Sou mais uma peça para ajudar no trabalho de cerco nos acessos à Rocinha. Vamos fiscalizar e impedir o trânsito de indivíduos suspeitos na favela ¿ explica o delegado.

Na operação de ontem, algumas lojas não abriram as portas e os moradores viveram momentos de apreensão. Durante cerca de seis horas, 150 homens de quatro delegacias especializadas, além da Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil (Core), vasculharam a favela, com apoio do carro blindado conhecido como Pacificador. Os moradores acordaram assustados com os intensos tiroteios e o lançamento de uma bomba, que marcaram a chegada da polícia, antes das 7h.

¿ No ano que vem me mudo daqui. É revoltante criar os filhos num ambiente de violência, em que as pessoas empunham armas, usam drogas e transportam cadáveres constantemente ¿ desabafou uma comerciária. José Ferreira, o Russo, também foi preso, acusado de aliciar menores da favela para o roubo e furto de aparelhos de CD de carros e celulares. Ele foi detido por policiais da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) em uma loja de reparos de aparelhos eletrônicos, onde vendia as mercadorias. Durante a investigação, os menores contaram que recebiam R$300 pelos celulares com câmeras e R$120 pelos aparelhos de CDs.