Título: Inflação em baixa, juro real em alta
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 21/07/2005, Economia & Negócios, p. A19

A queda dos preços, captada nos principais índices divulgados nas últimas semanas, não teve sobre a taxa básica de juros o mesmo efeito do período em que a inflação apontava trajetória ascendente. Na primeira reunião após a baixa do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (-0,02%, resultado inédito em dois anos), o Comitê de Política Monetária manteve o conservadorismo e decidiu que a taxa de juros será de 19,75% ao ano nos próximos 30 dias. Quando a inflação estava em alta, o Banco Central passou nove meses consecutivos elevando a Selic - 3,5 pontos percentuais entre setembro e maio. Agora, com deflação, prefere esperar. A decisão, em linha com a previsão do mercado, mais uma vez contrariou o setor produtivo.

Em paralelo com a inflação em queda, a decisão consolida o Brasil como o detentor da maior taxa de juros reais - descontada a inflação - do mundo. Pesquisa da consultoria GRC Visão mostra que, em junho, o Brasil, no topo do ranking, tinha um juro real de 14,1% ao ano. Porém, com a Selic confirmada em 19,75% ao ano e uma inflação de 4,97% nos próximos 12 meses, projetada pelo boletim de mercado do BC divulgado na última segunda-feira, a taxa real avança para 14,78% ao ano.

De acordo com a GRC, o Brasil supera com folga os países que o seguem no ranking dos juros reais - Hungria, com 5,1%, Turquia e Israel, com 4,7% ao ano. A taxa é dez vezes superior à média mundial, de 1,3%, e sete vezes acima da média dos emergentes, de 2,1%.

O conservadorismo do Copom resistiu ao resultado negativo na inflação em junho e à previsão de IPCA para os próximos 12 meses. A projeção indica uma possibilidade mais realista de convergência para a meta de inflação em 2006, que é de 4,5%. Para julho, porém, a leve deflação do IPCA não deve persistir, já que os reajustes da telefonia fixa começaram a pressionar os preços no varejo. É o que aponta a prévia do IGP-M divulgada ontem, que indicou deflação de 0,25%, ante 0,38% na de igual período em junho.