Título: Iraque motivou terroristas
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Fonte: Jornal do Brasil, 01/08/2005, Internacional, p. A8

Um dos presos pelos ataques frustrados em Londres, no dia 21, deu ontem a justificativa que o governo britânico vinha lutando para não ouvir. Capturado em Roma, na sexta-feira, o etíope Hussain Osman confirmou em depoimento a participação na operação e garantiu que o ato terrorista foi inspirado no envolvimento da Grã-Bretanha no Iraque. Coerente com a aliança incondicional com os Estados Unidos, o premier Tony Blair repetiu à exaustão o argumento de que os ataques à capital londrina faziam parte de uma guerra terrorista contra a qual a invasão foi necessária.

Negando qualquer vinculação com a rede Al Qaeda - ''acessávamos programas pela internet, mas nunca houve contato direto'' - e mesmo com o grupo que executou as explosões do dia 7, Hussain contou aos interrogadores como ele e os outros três cúmplices da célula passavam horas assistindo cenas nas quais se via o desespero de viúvas e crianças iraquianas, bem como imagens de alguns dos 25 mil civis mortos no conflito.

- Havia um sentimento de ódio e a convicção de que precisávamos dar um sinal, fazer alguma coisa por elas. Queríamos vingança, para que pagassem pelo o que estão fazendo com os muçulmanos depois de 7 de julho, pelo tratamento dos ingleses ao nosso povo - teria afirmado o acusado, segundo fontes ligadas à investigação citadas pelo The Observer.

A declaração do etíope surgiu em meio a várias versões diferentes para sua participação. Jornais italianos afirmaram ontem que o preso garantiu aos policiais que não sabia quem lhe havia dado a bomba para ser detonada no metrô.

- Recebi a mochila sem saber quem era a pessoa. Queríamos fazer um ataque, mas apenas como um show. Não era para matar ninguém, apenas para assustar - disse Hussein, segundo o jornal Corriere della Sera . Já o jornal Il Messaggero, de Roma, citando fontes da polícia, garantiu que os quatro eram realmente terroristas-suicidas. Esse aspecto é corroborado pelo fato de ter sido relativamente fácil para a polícia encontrar os quatro suspeitos depois que as bombas falharam. Como morreriam na operação, não havia plano de fuga ou alternativa para se esconder.

- Mais do que rezar, nós discutíamos sobre trabalho, sobre polícia e sobre a guerra no Iraque - revelou o terrorista, ainda de acordo com o Observer . - Sempre víamos os filmes nos quais se viam mulheres e crianças mortas pelos soldados americanos e ingleses - completou.

Se o depoimento for confirmado, terá providenciado um importante conhecimento sobre o funcionamento de uma célula terrorista. Também ajudará a polícia londrina na caçada aos homens ligados à rede Al Qaeda que fizeram o recrutamento e a preparação para as duas séries de atentados. Outros seis homens e uma mulher foram presos ontem em Londres.

Hussain, segundo os agentes, também é conhecido como Hamdi Adus Issac. Sua advogada, designada pela corte, sugeriu que ele tente resistir ao pedido de extradição feito por autoridades britânicas. A imigração italiana disse que Hussain é britânico nascido na Etiópia, fala italiano e viveu na Itália durante os anos 1990. Tem parentes no país, incluindo dois irmãos, que também foram presos. Um deles, Fati Issac, é acusado de ''esconder e destruir'' documentos.

A figura desse suposto controlador - que não seria o britânico capturado em Zâmbia, mas alguém acima dele - que conhece outras células dormentes da Al Qaeda na Grã-Bretanha está tirando o sono da polícia. O chefe da Scotland Yard, Ian Blair, advertiu a população ontem para a existência de mais um comando com quatro terroristas ainda à solta. O padrão de ação da rede terrorista, que costuma repetir seus alvos, estaria deixando todo o aparato de segurança em alerta.

Em outro ponto confuso, Hussain confessou ter recebido orientação sobre como montar bombas, apesar de dizer que não sabia quem lhe havia entregue a carga que portava.

- Nosso chefe ensinou como fazer bombas a partir de fertilizantes, instalar timer nelas e colocá-las em mochilas - disse, ainda de acordo com a imprensa britânica.

As idas e vindas podem ser parte de uma estratégia para evitar que a investigação chegue perto desse ''chefe'' misterioso. Especialistas em inteligência afirmam que pelo menos um alto integrante da cúpula do terror está baseado na Grã-Bretanha. E pode ter tomado parte no encontro que as células tiveram em um hotel de aventuras no País de Gales, em junho.