Título: Jogadas retóricas
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 04/08/2005, País, p. A3
Companheiras no aperto, as tiradas presidenciais adoram meiões e chuteiras. Lula escala o bordão de Zagallo ¿ ¿Vão ter de me engolir¿ ¿ para intimidar o time adversário. Antecipa o jogo enquanto a política luta contra o rebaixamento. O palanque separa o original da cópia. Cuspida com raiva em 1997, a bravata do técnico se esgotava no desabafo. Uma resposta intempestiva e malcriada, até ingênua, aos críticos da Seleção em ajuste para a Copa da França. O dedo em riste, o rubor incontrolável, a ira represada. Não havia gestos teatrais esculpidos por assessores, bambas do marketing ou advogados. O recado no olho da câmera fulminava indignação espontânea. Orelhas ardendo por meses, chegara a hora do contra-ataque. O maior vencedor com a camisa amarela não deixaria por menos.
Com a inconseqüência dos consagrados, bradou aquela que se tornaria a frase-símbolo do convívio recente entre os cânones da bola. Reivindicava justiça: ali chegara por mérito e devoção, seria preciso mais do que meia dúzia de críticas para derrotá-lo.
Tornaria a sacá-la, um par de vezes, sem a mesma eloqüência. Sem a empáfia da reação emocionada, que lhe rendeu alguns momentos a mais de berlinda. O tempo e a biografia transformaram-na em folclore. Um pecado providencial do velho e bom Zagallo. Invadiu a área do humor, outra boa história das boas histórias fabricadas pelo futebol. De folclore, virou referência ¿ ora vestida de campanha. Nesta aplicação revela-se a grande diferença entre as jogadas supostamente iguais. Uma tem a espontaneidade do drible, um desabafo. A outra tem calibre tático, um jogo de cena para a arquibancada.