Título: Lula:''Vão ter de me engolir''
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Fonte: Jornal do Brasil, 04/08/2005, País, p. A3

Sobre palanque armado em praça pública e em clima de comício eleitoral, no lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou ontem à terra natal de Garanhuns (a 245 km de Recife) e disse que se for candidato à reeleição tarão de engoli-lo.

- Se eu for (candidato), com ódio ou sem ódio, eles vão ter de me engolir outra vez, porque o povo brasileiro vai querer - afirmou Lula, sob gritos e aplausos.

O presidente reclamou seu direito de concorrer ao pleito e insinuou que seus adversários temem sua participação:

- Ainda nem disse que sou candidato, mas tem gente que fala: ''é preciso fazer ele sangrar, para chegar fraco nas eleições''.

A afirmação foi o mote para o presidente afirmar que não foi o responsável pela aprovação da proposta de reeleição. Segundo ele, a oposição tenta impedi-lo de concorrer:

- Na Constituinte, votei para não ter reeleição. Mas, agora, dizer que eu não posso concorrer. Com base em quê? Com medo de que eu possa provar que em quatro anos fiz mais do que eles durante oito anos - afirmou, referindo-se aos dois mandatos de FH.

Animado pelas cerca de 8 mil pessoas que acompanhavam o discurso na praça Guadalajara, Lula continuou a atacar seus opositores . Disse que aprendeu a ter ''dignidade e vergonha na cara'' e que respeita os outros para também ser respeitado.

- Se querem respeito, me respeitem, porque eu não devo a minha eleição a favor de ninguém. Eu devo a minha eleição ao povo deste país, que acreditou e que votou. E é a ele que eu prestarei contas no momento certo.

Acompanhado, entre outros, dos governadores de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos (PMDB), e de Alagoas, Ronaldo Lessa (PDT), Lula também comentou a crise política. Disse que era um homem ''calejado'' e que já havia apanhado muito na vida.

- Nunca tive alguma coisa que não tivesse que lutar feito desgraçado para conquistar - declarou, ressaltando à ação do Ministério Público :

- Espero que o Ministério Público mova uma ação, e quem deve pagar, pague, seja do PT, do PMDB, católico ou evangélico. Não tem cor, não tem raça, não tem sexo, não tem ideologia.

Lula reclamou ainda da imprensa e pediu para que, após as investigações, os meios de comunicação se desculpem com os inocentes.

- Peço que a imprensa peça desculpas aos acusados injustamente. Vamos ser duros com os culpados e justos com os inocentes.

Falando para um público aliado, o presidente só teve dificuldades para conter as vaias contra o governador de Pernambuco. Jarbas foi vaiado 10 vezes na cerimônia, apesar de não ter discursado . A platéia reagia cada vez que o nome do peemedebista era citado. Para evitar mais constrangimentos, Lula preferiu generalizar. Passou a se referir a Jarbas e Lessa como ''governadores''.

Pouco antes do início do evento, o presidente manteve um encontro reservado com um grupo de aproximadamente 50 parentes em uma sala do centro cultural da cidade. Lula entrou no local já acompanhado de dois familiares. Saudou todos coletivamente e depois distribuiu abraços e apertos de mão. As conversas giraram em torno de amenidades. Sobre a crise política, nada se falou nos 30 minutos em que estiveram juntos.

O primo do presidente, o agricultor Gilberto Ferreira, disse que havia unanimidade no apoio ao Lula, mas que todos preferiram não comentar o assunto. Fora da sala, entretanto, o lavrador opinou. Em sua casa, no município de Caetés, terra natal de Lula, ele disse que não ficou surpreso com a denúncia de existência de caixa 2 nas campanhas eleitorais.

- Sempre teve essas coisas nas eleições, só não esperava que tivesse também no PT. Mas, Lula não sabia de nada, se ele soubesse já teriam descoberto - acredita.