Título: Stiglitz: juros prejudicam emprego
Autor: Daniele Carvalho
Fonte: Jornal do Brasil, 04/08/2005, Economia & Negócios, p. A19
O prêmio Nobel de economia, Joseph Stiglitz, criticou ontem a política monetária adotada por países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, que elevam juros para conter a inflação, mas não levam em consideração os efeitos negativos deste artifício.
- Com os juros altos que o Brasil pratica hoje, fica muito difícil criar emprego. Da mesma forma, as taxas de câmbio elevadas também são um problema para os países em desenvolvimento. Está errado ter foco único na inflação - afirmou.
Na avaliação do economista, os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, são uma boa alternativa em momentos de baixa criação de emprego. Ele ressaltou que estes programas são importantes, principalmente para crianças, o que evita a perpetuação da miséria por gerações.
Em relação a mecanismos de controle de fluxo de capital em países em desenvolvimento, o economista diz que a discussão em torno do assunto não se faz tão necessária como no início década de 90, já que atualmente existe um excesso de entrada de capitais.
- Mas se o mercado voltar a procurar apenas por taxas mais altas de retorno, aí sim o assunto volta a ser importante para evitar a entrada de capital especulativo - defende ele.
Stiglitz sugeriu ainda - durante o Seminário sobre Desenvolvimento Econômico com Eqüidade Social - que os países do eixo Sul-Sul (Brasil, Índia e África do Sul) busquem uma agenda de comércio alternativa ao Consenso de Washington, que traçou diretrizes neoliberais para o desenvolvimento de países da América Latina.
- Os países do Sul devem chegar a um consenso e negociar acordos de comércio internacional sem subsídios agrícolas. Uma alternativa a estes subsídios seria utilizar recursos provenientes de créditos de seqüestro de carbono como forma de compensação aos agricultores - sugere.
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou esperar que as afirmações do secretário americano do Tesouro, John Snow, de que a aprovação do Acordo de Livre Comércio da América Central e República Dominicana (Cafta) possa acelerar o andamento da implementação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), não fiquem apenas na intenção.
- Se com um percentual tão pequeno de exportação como é o do Cafta houve tanta dificuldade de aprovação no Congresso dos EUA (com apenas dois votos a favor na Câmara), imagino como será a reação à produtividade brasileira e de outros países do Mercosul - disse Amorim.
Também presente ao encontro, o embaixador Regis Percy Arslanian, diretor-chefe do Departamento de Relações Internacionais do Itamaraty, revelou que líderes do Mercosul deram início na segunda-feira às negociações que poderão resultar no maior acordo de livre comércio em termos populacionais do planeta: a criação de um novo corredor comercial entre o bloco sul-americano, a Índia e a Sacu (aliança de cinco países do Sul da África). O projeto do acordo abrange acesso a mercados de bens, serviços e investimentos.