Título: Choro, lembranças e promessas
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 05/08/2005, País, p. A2

Num discurso a agricultores em Canto do Buriti, o quarto em menos de 24 horas no Piauí, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chorou a ponto de paralisar sua fala e embargar a voz, quando falou das origens pobres de sua família.

Lula visitou uma produção de mamona, cuja semente é usada para produzir biodiesel.

Para uma platéia de cerca de 1.500 pessoas, o presidente discorria sobre a valorização que a sua administração tem dado ao Nordeste, segundo ele discriminado por outros governos - assunto que deu a tônica dos discursos de ontem.

Citou então sua mãe como exemplo de persistência em meio a dificuldades.

- Convivi com a minha mãe até 1980, quando ela morreu, e nunca vi, por pior que fosse a situação, ela perder a esperança. Não tinha jeito de você ver a minha mãe sentar numa mesa, mesmo quando não tinha o que comer - comentou.

Lula parou de falar e enxugou os olhos com um lenço. Seguiu-se o discurso, e o choro continuou.

- Muitas vezes as pessoas perdem a esperança, muitas vezes desanimam e vão para São Paulo. E quem chega lá hoje não tem a mesma sorte que tive na década de 1950. Naquele tempo a gente tinha mais oportunidade. Não era como hoje, que se chegar em São Paulo e não tiver parente, vai para baixo de uma ponte.

Após contar que ele e a família comeram ''o pão que o diabo amassou'' na viagem de pau-de-arara de Pernambuco a Santos, Lula se disse orgulhoso em ver o projeto de agricultura familiar, que abriga 619 famílias na Fazenda Santa Clara, da empresa Brasil Ecodiesel.

Seguindo tendência crescente desde que se agravou a crise política, o comportamento do presidente no interior parecia o de um candidato em campanha. Prometeu grandes obras para o Nordeste: a rodovia Transnordestina, que deve ser anunciada ''dentro dos próximos dias'', a transposição do rio São Francisco, a instalação de uma refinaria de petróleo em Pernambuco e a construção de uma rodovia litorânea do Rio Grande do Norte à Bahia.

Sobre a polêmica obra do São Francisco, afirmou que a transposição visa diminuir o sofrimento de 12 milhões de famílias que andam até 16 léguas para pegar um pote d'água.