Título: Cultivo de fatos e versões
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 05/08/2005, País, p. A2

Delineada desde a semana passada, o Planalto colocou em campo, depois do depoimento do ex-ministro José Dirceu à Comissão de Ética, terça-feira, a estratégia para criar fatos e versões e retomar o controle do governo, escapando do cerco da crise. A denúncia de que Marcos Valério, apontado como operador do mensalão, teria se apresentado em Portugal como ''consultor do presidente do Brasil'', reforçou a tática composta de três movimentos simultâneos.

De um lado, Lula retomou as viagens pelo país, o discurso de palanque e os contatos com os eleitores. A retórica reforça as críticas à imprensa, às ''elites'', e a contínua lembrança de seu passado de carências. De outro, auxiliares e ex-ministros ''confidenciam'' o temor de um suposto complô da oposição para pedir o impeachment do presidente. Assim mobilizariam movimentos e organizações ligadas ao PT e atraíram o apoio das classes C, D e E, responsável pela manutenção da popularidade de Lula nas pesquisas. Paralelamente, o presidente cuidaria de arregimentar a ''elite'' que tanta ataca dos palanques para defender o que chamam de ''agenda positiva'' e se firma na tese de que é precisa manter o país caminhando, mesmo e apesar da crise política e do alcance das denúncias.

Ontem, enquanto ministros e assessores palacianos se declaravam convencidos de que a oposição prepara o pedido de afastamento do presidente, Lula retocava o discurso para afagar eleitores. No interior do Piaui, durante a inauguração de obras na Vila Irmã Dulce, comunidade de baixa renda de Teresina, ao lembrar a mãe que ''jamais perdeu a esperança'', chorou copiosamente.

Hoje, o Planalto conclama o empresariado para celebrar um pacto nacional pela governabilidade, certo de que, enquanto tiver a salvaguarda do PIB e das centrais sindicais, Lula permanecerá blindado. À tarde, o presidente reúne pesos pesados da indústria, como Jorge Gerdau e Benjamin Steinbruch.

O diálogo com o setor produtivo e o empresariado foi reaberto nos últimos dois dias pelo ministro da Coordenação Política, Jaques Wagner, em jantar no Rio de Janeiro e em audiência no Planalto com a participação do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o secretário de Política Econômica, Bernard Appy, e o deputado Carlos Melles (PFL-MG). Nas conversas, passaram a ''preocupação'' do governo com a ''radicalização'' das cúpulas de PSDB e PFL, traduzida na resistência dos dois partidos em estabelecer uma agenda mínima de votações no Congresso. A avaliação no Planalto é a de que, ao contrário do que alardeiam publicamente, setores da oposição apostam no discurso do ''quanto pior melhor''.

Os principais alvos da ira palaciana são o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (PFL-SC) e o deputado tucano Alberto Goldman. Para um ministro próximo a Lula, ambos tentam radicalizar o discurso da oposição.

- As cúpulas de PSDB e PFL trabalham pelo impeachment. Isso está claro - afirma auxiliar próximo do presidente.

Tal tese ganhou voz. O secretário nacional de Comunicação do PT e ex-ministro da Saúde Humberto Costa afirmou ontem acreditar que o discurso de quarta-fera do presidente Lula é reflexo das pressões diante da suposta possibilidade de um pedido de cassação e de sugestões de que deveria desistir do segundo mandato.

Naquele dia, em Garanhuns (PE), Lula afirmou não dever a eleição a favores de ninguém. Assegurou que a oposição terá de ''engoli-lo. novamente''.

- Entendi que o presidente se sente, de certa forma, um tanto pressionado por ameaças de impeachment ou de sugestões de que deve abrir mão de uma prerrogativa constitucional, a reeleição - afirmou Costa.

De seu lado, Bornhausen não chega a falar de impedimento, mas afia o tom:

- Apelar para a união nacional é golpe. O papel da oposição não é socorrer governos corruptos e em estado de decomposição. Sequer aceito dialogar com enviados do governo. Eles não têm autoridade moral, política ou administrativa.