Título: A decepção do velho e pobre PT
Autor: Israel Tabak
Fonte: Jornal do Brasil, 07/08/2005, País, p. A4

Se alguma alma bem-intencionada do PT estiver mesmo interessada em ajudar a ''refundar'' o partido, é bom dar um pulo em São João de Meriti, cidade com quase 500 mil habitantes, na periferia pobre do Rio. Mas vá com cuidado, porque encontrará uma legião traumatizada diante da revelação dos desmandos da cúpula partidária destituída. O PT de São João ainda é aquele velho (na época recém-nascido) partido do início dos anos 80, a legenda das comunidades eclesiais de base, da pastoral operária e dos movimentos sociais que visam a conscientizar a população pobre sobre os seus direitos. Nada que combine com o partido ''aparelhado'', à cata de verbas milionárias para reinar a qualquer custo na cena política. Por isso a decepção.

- Já lidei com casos de depressão de gente muito simples, há muitos anos na luta, e que está com um sentimento de derrota muito grande. São pessoas que escondem a bandeira do PT e já não exibem a estrelinha no peito. Muitas chegam e me perguntam se não dá mais para confiar em ninguém. É muito triste -- conta Leila Regina Soares, que coordena o movimento de mulheres na cidade.

Jorge Florêncio, que começou como operário da construção civil, trabalhou nas campanhas contra a desnutrição, ajudando Dom Mauro Morelli, e entrou para o PT em 1981, pela primeira vez tem passado por situações constrangedoras, por causa de sua filiação.

- Outro dia estava saindo de um show com o meu filho, quando alguém me viu e gritou alto: 'Olha lá o pessoal do mensalão!' - conta.

Padre Adelar Pedro de David, o pároco local que hoje preside a Câmara Municipal, diz que o rebanho, de fato, está sofrendo:

- Ainda representamos o PT original que estão querendo refundar. Minha missão é reanimar a turma. Digo sempre que tudo deve ser apurado, os culpados punidos, mas que vamos sair dessa.

Como enfrentar a profunda decepção dos militantes? Leila Regina Soares acha que o momento deve ser aproveitado para uma ''profunda reflexão''. Florêncio diz que a cada escândalo fica mais claro para os antigos militantes que a política não tem sentido se não for exercida com ética:

- Não pode ser na base da Lei de Gerson. Sem ética não vale a pena. Por isso precisamos ser rigorosos para punir os culpados. Temos que aprender a lidar com os diversos grupamentos políticos, apesar das divergências, mas isso não significa que devemos copiar seus métodos - avalia. (I.T.)