Título: Escândalo do mensalão desnuda vícios da política
Autor: Israel Tabak
Fonte: Jornal do Brasil, 07/08/2005, País, p. A4
De Rondônia ao Rio Grande do Sul, em estados ricos e pobres, em grande metrópoles ou cidades minúsculas, o escândalo do mensalão está fazendo aflorar toda sorte de desmandos. Não é preciso ir muito longe para descobrir histórias escabrosas ou apenas curiosas de como os vícios do dia-a-dia estão enraizados na cultura política brasileira. Em São João de Meriti, na periferia do Rio, por exemplo, o episódio do mensalão provocou alarme não em conhecidos financiadores de campanhas, mas em parte da população mais pobre que costuma aproveitar a época das eleições para também tentar fazer caixa.
São os falsos cabos eleitorais que, na verdade, se constituem no eleitorado pago pelo candidato para alcançar os votos suficientes. Com a ajuda do título, os votos são conferidos urna a urna. Quem não votou não recebe a gratificação prometida. Ligado aos movimentos sociais da Igreja Católica, o ativista Jorge Florêncio conta que tem ouvido de gente pobre comentários preocupados sobre as ameaças que estariam pairando sobre esta compra de votos disfarçada, já que os políticos estariam mais temerosos após a explosão do escândalo do mensalão.
- A época da eleição é o único momento em que a população mais pobre - a esmagadora maioria do povo brasileiro - pode fazer algum tipo de barganha com os políticos fisiológicos - explica o sociólogo Orlando Alves Júnior que fez sua tese de doutorado sobre democracia e governo local, estudando a Região Metropolitana do Rio.
A desigualdade social alimenta essa máquina. Como não se sente portadora de direitos, a população tenta negociar, pelo melhor preço possível, o seu voto.
- O objetivo é ''arrancar'' algo do político, que, naquele momento, se torna dependente do eleitor - analisa Orlando.
São João é uma cidade-dormitório onde moram pessoas que não conseguiram se fixar mais perto do Rio. O tamanho das carências ajuda a consolidar uma aliança perversa entre a política clientelista e um eleitorado que reflete desigualdades sociais gigantescas.
Nessas cidades muito pobres, onde a maioria da população não se sente portadora de direitos, a máquina política se torna ainda mais vulnerável ao poder dos principais grupos econômicos locais, como empresas de transporte, empreiteiras, loteadores e casas de saúde.
- Não se pode generalizar e colocar todos no mesmo saco, mas há lobbies que se tornam financiadores e às vezes corruptores de políticos. O objetivo é tornar a máquina pública um campo de bons negócios para esses grupos, geralmente em detrimento do bem comum. É uma transferência de renda negativa. Os mais ricos sugam o dinheiro da maioria de pobres do município - analisa Orlando Júnior.
Quanto maior o desinteresse do eleitor pelo dia-a-dia da política, maiores os desmandos: licitações fraudulentas, loteamento de cargos técnicos, favorecimento de empreiteiras e nepotismo.
A vigilância social é tanto menor quanto mais irrisório for o grau de associativismo local - observa Orlando Junir. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, por exemplo, o percentual chega a 45%, tanto na capital como na periferia. Já na Baixada Fluminense, o índice não passa de 17%.
- Isso pode explicar os avanços nos conselhos sociais comunitários, além do orçamento participativo, no Sul, e o atraso na Baixada. Esses conselhos comunitários e a experiência do orçamento participativo são, aliás, uma das formas que se revelaram mais exitosas para diminuir o distanciamento entre o povo e o poder.
Alguns poucos números dão a dimensão das carências de um município como São João de Meriti: cerca de 30 mil famílias vivem com menos de meio salário mínimo e apenas 700 crianças em idade pré-escolar têm creche quando a necessidade de vagas é de 30 mil.
Padre Adelar Pedro de David, que veio de Erechim, no Rio Grande do Sul é o pároco local e incentivador de movimentos sociais. Por isso resolveu se meter na vida partidária, na tentativa de motivar os políticos a concentrar sua atuação nos grandes problemas locais e não na clientela eleitoral. Único representante do PT eleito para a Câmara Municipal, foi escolhido presidente da casa.
- Minha prioridade é motivar políticos e todas as pessoas importantes da comunidade, sem preconceitos, a trabalhar sempre visando ao bem comum. O que favorece a cidade como um todo acaba também favorecendo os seus diferentes setores. Creio que minha mensagem está sendo entendida.