Título: Governo cede e negocia com as Farc
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Fonte: Jornal do Brasil, 10/08/2005, Internacional, p. A12
O presidente Alvaro Uribe assumiu o governo garantindo que venceria a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) pelo confronto porque o diálogo com o grupo se mostrara uma fraude. Apoiado pela verba de US$ 4,5 bilhões, liberados pelos Estados Unidos no Plano Colômbia, Uribe deslanchou uma campanha, até agora, sem um fim no horizonte. Ontem, no entanto, o alto comissário para a paz, Luiz Carlos Restrepo sugeriu um local para que finalmente sejam feitos encontros visando a troca de 62 reféns em poder das Farc por 500 rebeldes presos.
- O governo sugere a vila de Aures, em Caicedonia, como o local para avançar no diálogo sobre o acordo humanitário - afirmou Restrepo, durante encontro com parentes de seqüestrados em Cali, na mesma província do povoado. - Por instrução do presidente, devo dizer que tenho disponibilidade imediata.
A proposta não inclui a desmilitarização da região do encontro, uma exigência da guerrilha. Aures é um vilarejo com 22 casas e cem habitantes, nos Andes, 200km a Sudoeste de Bogotá. Até o fim do dia, as Farc ainda não haviam respondido. O grupo, com 17 mil efetivos, insiste que o governo retire suas forças dos povoados do Sudoeste antes de aceitar o acordo. No final de 2004, as Farc já haviam rejeitado oferta de realizar um encontro na Nunciatura Apostólica de Bogotá.
A guerrilha quer devolver os refens em troca da libertação dos rebeldes detidos em prisões federais, proposta que vinha sendo refutada por Bogotá. Entre eles, estão a senadora e ex-candidata à Presidência Ingrid Betancourt, três americanos, um ex-ministro, um ex-governador, 12 ex-deputados e vários soldados.
- Acreditamos que em cinco a oito dias poderemos começar a nos reunir com este grupo armado à margem da lei e discutir uma fórmula viável para o intercâmbio. Com isso, poderemos encerrar esse doloroso capítulo dos seqüestros - avaliou Restrepo.
Qualquer que seja a resposta da guerrilha, será apenas um começo. Enquanto isso, a violência prossegue sem tréguas. Também ontem, as autoridades colombianas apreenderam 11 mil balas de fuzil, parte delas impregnadas de cianureto, que aparentemente seriam usadas pelos rebeldes em ataques em Labranzagrande (250 km a Nordeste de Bogotá).
Já em Caruru, no departamento de Vaupés, perto da fronteira com o Brasil, um avião de carga foi atacado a tiros quando aterrissava. A aeronave da companhia Air Colombia, que abastece a cidade com gêneros alimentícios, foi perfurada por balas de grosso calibre. Os dois tripulantes nada sofreram. O prefeito de Caruru, Nelson Gutiérrez, disse se tratar do segundo ataque em menos de um mês.
Se a situação do front com as Farc ainda está indefinida, as negociações com outro grupo guerrilheiro de esquerda, o Exército de Libertação Nacional (ELN), avançaram. Uma comissão civil entregou as propostas a Restrepo e ao Comando Central do ELN, por meio do porta-voz rebelde Francisco Galán, que está preso. A comissão pede às duas partes que se reúnam de maneira urgente, com um mediador internacional, para definir uma eventual agenda. O ELN, fundado em 1966 e segunda guerrilha do país, ''aceitou a aproximação''. Em abril, o grupo havia desqualificado o México, país que trabalhava para aproximar a guerrilha e o Governo da Colômbia, em função do apoio mexicano à resolução dos EUA na Comissão de Direitos Humanos da ONU em Genebra que criticava Cuba.