Título: Droga convulsiona a fronteira
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/08/2005, Internacional, p. A9
Mesmo com o deslocamento de mais força policial para a cidade, Nuevo Laredo - no Norte do México, na fronteira com o Texas (Estados Unidos) - não tem sossego. Desde janeiro, pelo menos 110 pessoas foram executadas. A vítima mais recente foi a operadora de rádio da polícia, Adriana de León Martínez, assassinada quando saía do trabalho. Ao todo, este ano, já são 15 os policiais mortos.
A onda de violência é provocada pela rivalidade entre duas poderosas gangues de narcotráfico da região. Os grupos disputam setores cruciais da fronteira. Quem vencer, passa a controlar a maior parte do comércio ilegal, além das rotas de contrabando de entorpecentes. Os enfrentamentos ocorrem já há dois anos, desde a detenção do chefe do Cartel do Golfo, Osiel Cárdenas, mas não eram tão intensos.
Testemunhas contam que Adriana estava dirigindo para casa no fim da tarde de quarta-feira, à paisana, quando foi ultrapassada por outro veículo, cujo motorista era um jovem. No carona, estava outro homem, armado. O atirador abriu fogo, matando na hora a operadora de rádio. Outra policial, María Paz Rangel, que também estava no carro, foi baleada no ombro e no braço e está internada em estado grave. O crime aconteceu a apenas seis quadras da ponte internacional que leva a Laredo, no Texas.
Este, entretanto, foi apenas o mais recente exemplo da violência que assola a cidade, de 350 mil habitantes. Em 5 de agosto, o chefe da polícia local, Leopoldo Ramos, foi executado a tiros, também em pleno trânsito, dentro de sua caminhonete, no centro da cidade. Ele havia sido empossado no cargo horas antes. No mesmo dia, o consulado americano em Nuevo Laredo fechou as portas, após o prédio ter sido atingido durante uma perseguição com tiroteio, entre os membros das gangues, no qual bazucas e metralhadoras foram usadas.
Estes acontecimentos foram o estopim para a reação federal. O presidente Vicente Fox montou a operação ''México Seguro'', com o destacamento de mais 600 homens para vigiar os estados limítrofes de Tamaulipas, Baja California e Sinaloa.
Em Nuevo Laredo, os agentes federais estão responsáveis por patrulhar as áreas onde foram registradas mortes relacionadas ao narcotráfico. Além disso, montam barreiras nas estradas, em busca de armas e drogas. Segundo o novo chefe da polícia local, Omar Pimentel, seus policiais se concentram em prevenir roubos e pequenos crimes.
O bairro de Jardin, onde fica o consulado dos EUA, é uma das áreas protegidas pelos agentes federais. A representação, que emite 29 mil vistos por ano e é considerada uma dos mais importantes no México, voltou a funcionar nesta quarta-feira, dia 10.
- Não descartamos uma nova suspensão das atividades, se a violência continuar - advertiu o cônsul americano, Michael Yoder.
O prefeito Daniel Pena também foi alvo do aumento das medidas de segurança. Agora, só anda em carro blindado, escoltado por, no mínimo, cinco seguranças.
Mas, para Fernando Vallejo García, diretor da Polícia Ministerial do Estado (PME), apenas a operação ''México Seguro'' não é suficiente. A gravidade da situação requer ação da polícia internacional (Interpol), com autoridade para investigar e atuar em ambos os lados da fronteira, avalia o especialista.
- Os bandos agem com vantagem sobre a polícia, pois não respeitam a fronteira, nem competências legais e jurídicas - afirma.
Vallejo García denuncia ainda que os grupos operam tanto nos EUA quanto no México. Inclusive, vários assassinos são de origem americana. Dessa maneira, fica mais fácil escapar da Justiça: é só cruzar a fronteira. Isso explica porque até agora poucos pistoleiros foram detidos em Tamaulipas, sobretudo em Nuevo Laredo.
- A rede do crime nasce com a produção da droga e termina com o consumo - lembra Vallejo García, salientando que também cabe a Washington resolver o problema, já que o mercado consumidor de entorpecentes se concentra essencialmente nas grandes cidades americanas.