Título: Trechos da entrevista de Valdemar Costa Neto
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 13/08/2005, País, p. A2

À revista Época, já nas bancas, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, enfatiza que Lula e seu vice, José Alencar, estavam cientes das negociações financeiras envolvendo seus partidos.

Por que o sr. renunciou?

- Cometi erro fiscal. Não declarei o dinheiro que recebi do PT. Não tinha motivo para duvidar da origem do dinheiro do PT. O PT sempre foi um partido sério, de gente decente. Mas cometi um erro e renunciei para continuar sendo respeitado por meus colegas do partido. A história do PL é ruim, mas é a menos pior.

Qual é a história do dinheiro que o sr. recebeu do PT?

- Tudo começou nas negociações para fechar o apoio a Lula em 2002, com Alencar, do PL, como vice. Tivemos muitas reuniões, em Brasília, na casa do José Dirceu. Sempre participavam o (deputado) João Paulo (PT), quase sempre o (ex-secretário-geral do PT) Silvio Pereira, sempre o (ex-tesoureiro do PT) Delúbio Soares, além do José Alencar. Tudo ia bem, até que a Justiça aprovou a verticalização (permitindo apenas coligações com aliados nacionais). Fui ao Dirceu e avisei: ''Tudo mudou''.

Foi aí que o PL pediu dinheiro ao PT?

- A questão é que o PL precisava ter 5% dos votos para ter as verbas do fundo partidário. Com a verticalização, as nossas chances de chegar a 5% eram pequenas, porque só poderíamos nos coligar com o PT. Falei para o Zé: ''Para isso, preciso de uma estrutura maior para segurar meu pessoal''. Ele falou: ''Mas quanto?''. Eu falei: ''R$ 15 milhões, R$ 20 milhões''.

Como chegou ao acordo?

- Foi uma discussão grande. Em 18 de junho de 2002, tive reunião com o Dirceu. Ele disse que não tinha jeito de fazer o aporte de dinheiro. Respondi: ''Então me libera (para outra coligação)''. Ele respondeu: ''Está liberado''. Já estávamos fazendo nota conjunta dizendo que a coligação PT-PL não ia sair quando me liga o Alencar. Contei a ele que não conseguimos chegar a um número. O Alencar disse para eu não assinar a nota conjunta. Daí a 15 minutos, ligou e disse que o Lula viria no dia seguinte a Brasília resolver.

Resolveu?

- A reunião foi no apartamento do deputado Paulo Rocha (PT). Estavam lá Lula, José Alencar, Dirceu e Delúbio. O Lula chegou e disse: ''Quer dizer então que você é o nosso problema?'' O Dirceu não queria falar de dinheiro, queria negociar a participação no governo: ''Valdemar, vamos governar juntos?''. Respondi: ''Mas, desse jeito, não vai sobrar ninguém na Câmara para governar com vocês''. Depois o Lula até falou para o Alencar: ''Vamos sair porque esta conversa é entre partidos, não entre candidatos''.

Falaram de números...

- O Lula e o Alencar ficaram na sala e fomos para o quarto eu, Delúbio e Dirceu. Comecei pedindo R$ 20 milhões para levar uns R$ 15. Ficou aquela discussão. Uma hora, o Alencar entrou e falou: ''Já resolveram?''. Eles (o PT) achavam que iam arrecadar R$ 40 milhões. Falei: ''Tira R$ 15 milhões para a gente. É justo''. Eles ameaçaram ir embora. O Lula mandou ligar para o (hoje ministro) Patrus Ananias e avisou que, se a conversa não desse certo, ele seria o candidato a vice. Daí chamei Dirceu de volta para o quarto. O Zé Alencar veio junto. Falei: ''Vamos acertar por R$ 10 milhões''. Voltamos para a sala e avisamos: ''Está fechado''. Lembro ainda que o Alencar pediu doação legal.

E o presidente dizia o quê?

- Nunca falou. Quando saí, ele me falou: ''Então está liquidado o assunto''. O Lula foi lá para autorizar a operação. Não vejo nada demais. O que ninguém esperava é que desse essa lambança.

Quando receberam?

- Na campanha, nem um centavo. Vi que a coisa estava ruim quando fui a reunião no comitê de campanha e vi o Duda Mendonça cabisbaixo (conta rindo), reclamando: ''Não pagam meu pessoal. Não consigo criar sem dinheiro''. Imagine se eu ia receber, quando atrasavam para o Duda?

Quando o Delúbio disse que pagaria as dívidas de campanha?

- O Delúbio chegou a falar em empréstimo. Foi quando fiquei mais apavorado. Isso era no começo do governo Lula. Em fevereiro de 2003, falou que ia me dar a primeira parcela. Falou para mandar meu pessoal até a SMPB, em Belo Horizonte, para pegar o dinheiro. Mandei o Jacinto (Lamas, tesoureiro do PL). Eram cheques, num total de R$ 800 mil. Todos da SMPB, para uma empresa chamada Garanhuns. Liguei para o Delúbio, que falou: ''Fica tranqüilo. Vou mandar buscar o cheque aí''. Passa uma hora, vem um segurança, desse pessoal que mexe com dinheiro, e falou assim: ''Vim resgatar''. Me deixou o dinheiro vivo, numa daquelas malinhas. Chamei alguns fornecedores de campanha e paguei.

O dinheiro era sempre entregue na SMPB ou no Rural?

- Teve dinheiro entregue para mim. Entregaram ao Jacinto em Brasília. OJacinto chegou a receber em hotéis. Uma vez, em São Paulo, mandaram ele pegar o dinheiro num restaurante. Era sempre o Delúbio quem me avisava.

Delúbio diz ter montado o caixa 2 sozinho. É possível que Dirceu não soubesse?

- Dirceu sempre comandou o PT. O Zé (Dirceu) e o Lula. Cheguei a cobrar o Zé diversas vezes no Planalto. Falei que queria receber tudo de uma vez. Ele disse: ''Calma que o Delúbio está providenciando o dinheiro''.