Título: Sharon pode ceder mais
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Fonte: Jornal do Brasil, 13/08/2005, Internacional, p. A12
O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, afirmou ontem, em entrevista ao jornal israelense Yedioth Ahronoth, que o processo de retirada dos colonos judeus poderá se estender na Cisjordânia, atingindo mais assentamentos na região, como parte do acordo para viabilizar o processo de paz com os palestinos.
Sharon pretende, no entanto, preservar a maioria dos assentamentos judaicos na Cisjordânia sob seu controle, num eventual acordo de paz com os palestinos. O premier disse que ''nem todas (as colônias) permanecerão'' na região, e que este assunto ''será discutido na última etapa das negociações''.
A cinco dias do início da desocupação da Faixa de Gaza, as declarações do primeiro-ministro indicaram uma postura mais branda em relação a futuras retiradas. Sharon vinha insistindo até então que não tinha intenções de liberar mais colônias, além das 21 em Gaza e das quatro (de um total de 120) na Cisjordânia.
Já os palestinos temem que a retirada seja uma estratégia para manter a maior parte da Cisjordânia - com terras que reivindicam para si - intacta, impossibilitando o que consideram um Estado viável.
Na entrevista, o premier declarou ainda que, apesar das divisões na sociedade israelense geradas pelo Plano de Desligamento, não se arrepende da decisão, que entra em vigor na segunda-feira. Afirmou que ''teria feito a mesma coisa'', ainda que soubesse a dimensão da resistência que enfrentaria.
Cerca de 150 mil simpatizantes dos colonos e militantes da extrema direita nacionalista fizeram na quinta-feira um protesto na praça Rabin, em Tel Aviv, contra o plano de Sharon.
O Conselho de Colonos, organizador da manifestação, pediu que os participantes impeçam a entrada das forças de segurança em Gush Katif, principal bloco de assentamentos ao Sul de Gaza. No local, representantes dos colonos assinaram acordo de US$ 14 milhões para vender 75% de suas estufas à Fundação de Cooperação Econômica, fundo internacional privado que as transferirá à Autoridade Nacional Palestina (ANP).
Cerca de 450 colonos receberão US$ 3.500 cada um por mil metros quadrados de estufas vazias e US$ 4 mil pela mesma extensão de estufas prontas para cultivo, o que totaliza 350 hectares. As demais já foram enviadas a Israel.
Elad Maliji, proprietário de 18 mil metros quadrados em Netzer Hazani, Norte de Gush Katif, está envergonhado:
- Apesar de não querermos passar nossas estufas para os árabes, porque não gostamos deles, somos forçados.
Os palestinos, por sua vez, já começaram a comemorar. Ontem à tarde, a região foi tomada por bandeiras e fotos do líder Yasser Arafat, morto em 2004. Uma festa improvisada teve a participação do presidente da ANP, Mahmoud Abbas:
- A partir daqui, nosso povo começará a marcha para o estabelecimento do Estado Palestino com capital em Jerusalém - disse.
Apesar do andamento das negociações, o grupo extremista palestino Hamas declarou que não irá se desarmar após a retirada e que pretende continuar lutando contra o Estado de Israel:
- Armas são um assunto sagrado para nós. Não estamos abertos à discussão - disse o líder das Brigadas Qassam, Ahmed al Ghandour.
Os Estados Unidos, que apóiam a desocupação, aconselharam ontem os americanos a não fazerem viagens desnecessárias à região durante a desocupação.