Título: Como, onde e quando
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 16/08/2005, Opinião, p. A10
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fracassou até agora ao tentar aplacar as inquietações do país. Seu discurso da semana passada não reduziu a instabilidade política, não ajudou na necessária purificação do PT e, sobretudo, não criou um cenário que estabelecesse condições capazes de remover as incertezas dos meses que lhe restam de mandato. Lula não transmitiu sinceridade. Não se mostrou crível. No fundo, buscou preservar a própria biografia - dizendo-se traído pelas traficâncias executadas no círculo restrito de companheiros de longa data - e ignorou seu dever de guiar-se pela estabilidade institucional. O fracasso da iniciativa do presidente, já constatado no mesmo dia do discurso, evidenciou a necessidade de o presidente voltar a público para explicar-se. Assim desejam os cidadãos, assim cobraram algumas vozes sensatas de Brasília. Contudo, o ''gabinete da crise'', convocado ontem por Lula, descartou um novo pronunciamento.
Um erro grave do Palácio do Planalto. Mais um entre tantos passos erráticos desde que as primeiras denúncias começaram a enxovalhar a imagem do PT, arrefecer a confiança no governo e descredenciar o sistema político-partidário brasileiro. Os espasmos retóricos aos quais o presidente se tem dedicado revelam não mais do que um chefe isolado e amedrontado.
É preciso, portanto, insistir: o presidente Lula tem a obrigação de fazer um novo pronunciamento e dizer o que sabe sobre ''mensalões'', caixa 2 de campanhas e outros assaltos cometidos sob as barbas da cúpula do seu partido. Não haverá sossego no Palácio do Planalto enquanto o presidente não explicar como, quando e onde soube das práticas odiosas cometidas por aliados - esteja ele envolvido ou não diretamente com tais ações.
Pensar hoje no impeachment é precipitar-se política e juridicamente. Não à toa este recurso é citado por poucos. Todos, no entanto, desejam conhecer a verdade. E a verdade, hoje, começa por uma palavra do presidente que, infelizmente, ainda não veio.