Título: Premier endossa a farsa policial
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Fonte: Jornal do Brasil, 22/08/2005, Internacional, p. A11

Se a manifestação pelos 30 dias da morte do eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, programada para hoje, passar diante da residência do primeiro-ministro Tony Blair, em Downing Street, receberá a mesma receptividade gelada do outro protesto semelhante, feito logo após o crime. De férias, o premier mandou dizer que ''dá apoio total'' ao chefe da Scotland Yard, Ian Blair, sob intensa pressão desde que se descobriu que a polícia montou uma farsa para encobrir os responsáveis pelo fato de que Jean foi morto por engano.

A família do brasileiro e a própria imprensa britânica insistem na renúncia de Ian Blair, que sábado já havia recebido o apoio do ministro da Justiça, Charles Clarke. O ministro, por sinal, mesmo depois de descoberto o erro da polícia, fez questão de ''parabenizar'' os policiais que participaram da ação. O responsável pelos oito tiros em Jean ganhou inclusive férias com a família.

A preocupação em proteger o chefe da polícia metropolitana deixa claro: A missão diplomática brasileira que chega a Londres para exigir esclarecimentos não terá facilidades. A cúpula do governo da Grã-Bretanha se fechou em torno do responsável por um dos maiores fiascos já vistos no país. Flagrado na mentira por documentos da investigação conduzida pela Comissão Independente de Assuntos para a Polícia (IPCC), Ian Blair muda de versão a cada momento.

Ontem, em entrevista ao jornal News of The World , o diretor da corporação contou ter sabido do erro trágico, cometido pelos agentes na estação de Stockwell, só 24 horas depois da morte. Representantes do escritório da advogada Gareth Pierce, que defende a família do brasileiro, se disseram ''incrédulos'' com a confissão.

Afinal, no mesmo dia 22 em que houve o tiroteio no metrô, Blair havia concedido entrevista coletiva na qual dizia que o ''suspeito morto tinha conexões com os terroristas que haviam tentado explodir quatro bombas na véspera''. Para os advogados, soou espantoso o homem à frente da maior investigação criminal em curso no país aparecer diante da imprensa sem ter conhecimento dos fatos.

As edições especiais de domingo dos principais jornais ingleses dedicaram grande espaço ao escândalo em que se transformou a tragédia depois das revelações. O The Observer, por exemplo, revela que o agente - codinome Tango Ten - de vigia no prédio onde vivia o brasileiro - bem como o resto da equipe, tinham certeza, quando o seguiram, de que não se tratava do suspeito procurado, o etíope Hussein Osman. No relatório escrito após a ação no metrô, disse ter comunicado por rádio aos outros que o suspeito era um ''IC1'' (jargão policial para pele clara).

Porém, a ficha que orientava a polícia na caçada ao homem-bomba trazia o etíope (cujo apartamento era no mesmo prédio) qualificado como ''IC3'' (idem para indivíduos de pele escura). Além disso, diz o jornal, Tango Ten e outros colegas afirmaram querer prender o eletricista antes que este chegasse ao metrô. Foram forçados a passar o comando da ação à unidade CO19, grupo militar de elite criado para a Operação Kratos (atirar para matar).

Já o Sunday Times reproduziu com especialistas todas as circunstâncias que levaram ao crime para deixar claro que em um eventual julgamento dos responsáveis a equipe de vigilância pode ser a peça-chave para uma condenação dos integrantes do outro time. Isso porque a ação parecia ter sido correta até a ordem para o CO19 eliminar o suspeito, só permitida com 100% de certeza. Mesmo com o fato de o brasileiro ter tomado um ônibus, desembarcado e voltado para o veículo (interpretado como uma ''tentativa de despiste''), não se tinha tal convicção.

- Não haveria jeito de aqueles caras entrarem no vagão se acreditassem ou soubessem que ele realmente carregava uma bomba - avaliou um dos envolvidos. O mesmo havia destacado que oito tiros acertaram o brasileiro, mas onze foram disparados, ''expondo passageiros e policiais a grande risco''.

Insistindo em dizer que errou, mas não tentou acobertar um crime, Ian Blair recordou sua reação ao ser informado de que o ''suspeito vinculado aos ataques terroristas da véspera'' era um imigrante inocente.

- Foi como se dissessem: ''Houston, temos um problema'' - brincou, fazendo uma alusão à comunicação da nave Apolo 13 ao avisar da explosão que ocorrera a bordo, em 1970.