Título: PMs presos temem ataque de detentos
Autor: Maria Ganem
Fonte: Jornal do Brasil, 29/10/2004, Rio, p. A-15
Transferidos para o Centro de Observação e Reintegração Social, em Benfica, na quarta-feira, os 91 policiais militares que aguardam julgamento por crimes cometidos em serviço temem represálias por parte dos 57 detidos na unidade e traficantes de favelas vizinhas. Segundo parentes, os policiais presos receberam pratos para almoçar marcados com inscrições do Comando Vermelho. Eles também teriam ouvido ameaças de agressão e morte aos seus parentes vindas de outras celas da penitenciária. Ontem, o Batalhão de Choque foi acionado para conter o protesto policial iniciado na quarta-feira à tarde. Os PMs presos foram separados e transferidos para novas celas. Outros 222 policiais custodiados devem chegar à prisão de Benfica nos próximos dias.
Segundo o coronel Pereira Neto, subcomandante do Batalhão de Choque, na operação, os policiais que estavam no 3º andar - o mesmo que os presos civis - foram transferidos para o último andar do pavilhão e alocados em celas separadas para evitar conflitos. Ele informou que três bombas de efeito moral forma usadas contra os presos para conter o movimento. Os policias custodiados usaram colchões para se proteger e não reagiram. O coronel disse que a operação de transferência, iniciada às 9h, terminou por volta das 11h30, sem deixar feridos.
- Não existe a possibilidade de uma rebelião envolvendo os presos civis e policiais, uma vez que eles estão separados - assegurou o coronel.
Desde que chegaram à unidade, às 16h de quarta-feira, os policiais protestavam contra as condições da penitenciária. Penduraram camisas da PM nas grades e jogaram bilhetes aos parentes reclamando da falta de limpeza, água e luz nas celas. Os parentes que puderam visitar os presos depois da transferência, ontem de manhã, confirmam as más condições do presídio. Segundo Ana Paula, esposa de um policial acusado de extorsão mediante seqüestro, além da falta de água e luz, as paredes estão pichadas com siglas do Comando Vermelho, assim como os pratos em que almoçaram.
- Eu tenho muito medo de que comece uma rebelião envolvendo os outros presos. A polícia não conseguiu controlar a matança entre os bandidos há alguns meses, quem garante que vai conseguir agora? - questionou Ana Paula.
Andréia, irmã de um policial acusado de homicídio, disse que das celas é possível ouvir gritos de outros presos ameaçando os policiais:
- Os bandidos avisaram que vão dar ordem para pegarem a gente aqui fora. Ontem (quarta-feira) teve mãe que foi apedrejada por eles. Muitos dos bandidos foram detidos pelos policiais que estão presos aqui. Não dá para juntar todo mundo - desesperou-se Andréia.
Membros da comissão de Direitos Humanos da Alerj acompanharam a operação. Ao deixar o presídio, o presidente da comissão, Geraldo Moreira, reforçou a posição dos familiares:
- A transferência dos policias presos é inconstitucional. O Estatuto da PM garante que eles aguardem o julgamento numa prisão militar. Estes homens, que ainda não foram condenados, estão sendo tratados como bandidos. Vamos pedir ao Estado que reveja a decisão e que considere a possibilidade de, ao menos, transferir os presos civis para outras cadeias.
Apesar da declaração, segundo o deputado não são esses os planos do Estado. Pouco antes de sair, o corregedor-geral da PM, Sérgio Meinicke,
teria informado ao deputado que os outros 222 policiais presos do Estado serão transferidos para Benfica em breve.
- Não somos contra a junção dos policiais presos em uma única penitenciária, apenas contestamos a maneira com que a transferência está sendo feita. Além disso, discordamos da localização. Há favelas dominadas por bandidos em torno que põem em risco a vida dos policiais. Esta prisão não tem condições de receber outros presos - afirmou Geraldo Moreira.
O deputado Alessandro Molon (PT) disse que a comissão pretende enviar um ofício ao Estado pedindo que este assine um termo de responsabilidade sobre a integridade física dos policiais presos e parentes.
Em nota oficial, o comandante-geral da PM, coronel Hudson de Aguiar, confirmou a transferência dos outros policiais presos alegando que ''os quartéis não foram criados para manter cárceres''.
Uma parente de policial, que não quis se identificar, disse que no Batalhão de Choque, os 25 policiais presos foram chamados ''para uma reunião e saíram algemados para dentro de um camburão''