Título: Uma pesquisa inquietante
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 21/08/2005, País, p. A2
É irresistível a comparação entre a atual crise política e o tsunami que varreu do mapa cidades inteiras no Oceano Índico. Diante do volume de revelações e da incrível velocidade com que se dão as reviravoltas nas conjunturas políticas, a perplexidade abate-se sobre a sociedade em todos os seus segmentos. Mesmo do alto de seus conhecimentos e experiência, os analistas políticos têm dificuldade em enxergar todas as variáveis da crise política e suas possíveis implicações. A pesquisa de acompanhamento conjuntural do IBPS revela, de maneira precisa, o desencanto e a revolta dos eleitores cariocas e fluminenses com o Presidente Lula e, mais grave, aponta para um verdadeiro maremoto eleitoral nas próximas eleições. O eleitor anda mais consciente e informado, pois a maioria tem acompanhado regularmente a crise. No entanto, o ceticismo para com os atos e declarações do Presidente é nítido, na medida em que a maioria (63,9%) afirma não acreditar em Lula. O seu discurso, transmitido em cadeia nacional e revestido da pompa de uma reunião ministerial, saiu literalmente pela culatra. Após o discurso, 37% dos entrevistados passaram a acreditar menos no presidente. O nítido constrangimento e a ambigüidade das palavras de Lula naquele momento apareceram mais como uma satisfação forçada do que como um sincero pedido de desculpas à opinião pública. Com todos os problemas, não há apoio na sociedade para a tese do impeachment do Presidente, referendado por apenas 30% do eleitorado.
A tendência mais significativa apontada pela pesquisa, no entanto, é de um acentuado movimento de renovação da classe política nas próximas eleições. Mais que uma renovação, podemos falar de uma revolução no quadro político e partidário. Os entrevistados afirmaram, em 25,4%, que pretendem anular o seu voto em 2006, o que, somado aos 6% que deverão votar em branco, perfaz 31,4% do total dos eleitores, ou seja, algo em torno de 2 milhões e 500 mil eleitores. Se compararmos com a taxa de votos nulos (4,32%) e brancos (1,84%) no Estado do Rio em 2002, estamos diante de um crescimento de 400% no número de votos inválidos. Em toda a história eleitoral do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro jamais teremos visto número tão impressionante de votos nulos e brancos.
Uma conseqüência derivada desta abrupta subtração de votos válidos será a inevitável perda de legitimidade dos eleitos nos pleitos majoritários e a diminuição dos quocientes eleitorais para as eleições proporcionais. Há porém um outro dado de peso na pesquisa: 31,5% dos eleitores afirmam que votarão em candidatos novos. Este contingente, excluídos os votos brancos e nulos, representaria um impacto de 46% no total de votos válidos, o que aponta para uma possível varredura na atual classe política, com uma taxa de renovação nas casas legislativas jamais vista. Em média um em cada dois políticos atuais poderá não se reeleger em 2006.
Os resultados da pesquisa são de natureza a inquietar os analistas políticos e os homens públicos, pois a sempre sonhada renovação na política também pode ser a porta aberta para a aventura populista ou golpista. Se as atuais tendências se concretizarem, o povo terá feito, por sua conta, a reforma política.
*Presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS)