Título: O fim de um governo
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 21/08/2005, País, p. A2

O país foi sacudido por outra bomba, desta vez detonada pelo advogado e ex-assessor de Antonio Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto, Rogério Buratti. Em depoimento ao Ministério Público, após dois dias refrescando a memória na prisão, Buratti afirmou que o atual ministro da Fazenda recebia R$ 50 mil por mês das empresas de coleta de lixo da cidade e o dinheiro era repassado a Delúbio Soares. É o fim do governo do PT, mesmo que não venha a ocorrer o impeachment. De fato, se alguma coisa ainda mantinha o governo funcionando em meio a tantas acusações de corrupção em sua ala política, era a política econômica austera e a credibilidade conquistada por Palocci ¿ desde que assumiu o cargo, preferiu a cautela fiscal e monetária às aventuras heterodoxas preconizadas por muitos de seus companheiros. Tudo levava a crer que o ministro da Fazenda era pessoa alheia ao monstruoso esquema de corrupção que vem envergonhando o país, o que explica que a economia ainda não tivesse sido atingida pelo terremoto.

Muitos chegaram a afirmar, inclusive, que nossa economia estaria ¿blindada¿ contra os desvarios políticos, afirmação com que nunca concordei, porque todo o chamado ¿ajuste fiscal¿ foi e vem sendo obtido às custas de uma brutal elevação da carga tributária, para compensar o vertiginoso crescimento nos gastos permanentes do Estado.

As expectativas são as variáveis mais importantes na macroeconomia moderna, porque são elas que norteiam o comportamento dos mercados. Quando são boas, no sentido de existir credibilidade na política econômica, os ventos sopram favoravelmente, como vinha acontecendo até ontem, mas, quando se deterioram, tudo passa a ocorrer como se as más profecias se auto-realizem. De fato, uma acusação de tamanha gravidade envolvendo o ministro até então com maior credibilidade do governo ¿ que já tem, diga-se de passagem, o presidente do Banco Central envolvido em pretéritos processos ¿, mesmo que no futuro venha a ser comprovada como mentirosa, é capaz de desarrumar o que havia de aparentemente arrumado em nossa economia. A falsa ¿blindagem¿ deixa de servir até como bandagem exterior e o que passa a importar é a suspeita de bandidagem interior...

Se o mercado passa a acreditar que as coisas vão piorar, elas pioram, porque todos os agentes adotam comportamentos defensivos diante do que esperam. Vendedores, esperando que a inflação vai sair de controle, aumentam os seus preços e compradores, prevendo o mesmo, aceitam pagar mais caro no presente com medo de terem que despender mais no futuro. Se a previsão é de que a bolsa vai cair, todos procuram vender seus títulos e a bolsa cai rapidamente. Se a expectativa é de que o dólar vai subir, sobe a demanda de dólares, elevando a sua cotação. Ressalte-se que comportamentos desse tipo ganham força maior quando o equilíbrio das contas públicas é precário, como é o caso do nosso. Investimentos externos? Crescimento econômico? Estabilidade na economia? Com o fato revelado por Buratti, nem pensar! É mais fácil, infelizmente, esperarmos que, mais cedo do que supúnhamos, a lama política invada a casa econômica, inundando de sujeira todo o país e podendo, até, provocar uma fuga de capitais. É o fim, melancólico, de um governo sem preparo, sem pudor e sem ética!

*Ubiratan Iorio é economista e presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (Cieep).